Olhares não Convexos das (Foto)Escre(Vivências)…

Trajetórias e Olhares não Convexos das (Foto)Escre(Vivências): condições de atuação e (auto)representação de fotógrafas negras e de fotógrafos negros contemporâneos, é o título da minha dissertação de mestrado defendida no dia 03 de março de 2016 pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-raciais através do Centro de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (PPRER. CEFET-RJ). 

Para ler a dissertação, clique aqui.

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Foto de Antonio Terra, concepção de Vilma Neres, inspirada na figuração de John Xiniwe e Albert Jonas. Da direita para a esquerda: Isabel Terra e Vilma Neres, respectivamente, como fotógrafa e fotografada, na representação das (foto)escre(vivências), em 02 de fevereiro de 2016. RJ. Brasil.

Representação social da (foto)escre(vivência)

A imagem fotográfica apresenta-se a partir de conceitos objetivos subjetivamente. Desse modo, a imagem fotográfica disposta na página anterior, como epígrafe e texto visual, exibe a figuração de duas mulheres.

Portanto, essa imagem simboliza a (auto)representação de como se realiza o ato fotográfico, bem como reflete sobre a importância do diálogo entre profissional da imagem fotográfica e a pessoa fotografada, para que haja respeito mútuo na construção da figuração do Outro, e de como esse Outro espera se ver figurada durante o processo de construção de sua representação.

Assim o ato fotográfico só acontece após um processo que antecede à captação da imagem, e será envolvido com as intenções da fotógrafa ou do fotógrafo sob critérios de jugo estético e político. Logo, essa imagem aponta para o objetivo desta dissertação, além disso, promove a representação social da (foto)escre(vivência), não apenas pelo fato de existirem duas mulheres negras, mas porque sintetiza a noção de recepção e de contemplação da imagem fotográfica.

Diante disso representa-se a princípio, duas mulheres adultas, que sou eu mesma e dona Isabel Terra e quis produzir também a partir desta representação da (foto)escre(vivência) outras com homens e com crianças. Ressalto, que a idealização e produção dessa imagem – de representação visual da (foto)escre(vivência) – foi inspirada em outra imagem fotográfica, produzida entre 1891 e 1893, em que se observa a figuração de dois músicos adolescentes sul-africanos, John Xiniwe e Albert Jonas.

Boletim Semana Da Consciência Negra

Boletim produzido pela Secretaria do Audiovisual (SAv), órgão vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), em comemoração ao Mês da Consciência Negra. Este boletim apresenta fotos e depoimentos de jovens participantes, como eu (Vilma Neres), do “Edital Curta-Afirmativo: Protagonismo da Juventude Negra na Produção Audiovisual”, de 2012. Boletim Semana da Consciência Negra

Poesia estampa nota de 50 cruzado novos

Cédula de 50 cruzeiro novos, de 1990. Fonte: http://stampscoinsnotes.com/banknote/brazil-50-cruzeiro-1990/

Cédula de 50 cruzeiro novos, de 1990. Fonte: http://stampscoinsnotes.com/banknote/brazil-50-cruzeiro-1990/

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

“Canção Amiga” de Carlos Drummond de Andrade 

Frank Brown é Tio Ben ou “Uncle Ben’s?

Por Vilma Neres

Assim como as deliciosas frutas típicas do nordeste brasileiro, tal como jabuticaba e seriguela, confesso que tem sido um exercício bom esse processo de escrevivência, termo formulado pela escritora, Conceição Evaristo. Pela escrita exponho o que me convém e acerca de assuntos que vivencio no meu cotidiano. Eu me identifico com a fotografia e a escrita, porque com essas linguagens me aproximo das pessoas que admiro e que estão há milhas de mim, mas sabem como tenho (sobre)vivido…

Acontece que sou eu a única responsável por cuidar da minha alimentação, dos afazeres domésticos, além de horas de estudo e escrita entre outros trabalhos que me mantém aqui, no Rio de Janeiro. Sei que quase sempre me surpreendo indo ao supermercado, porque, particularmente, essa atividade é interessante e, como dizia o professor Jorge Conceição, “toda experiência deve nos servir a fim de nos tornamos pessoas (mais humanizadas)”. Nessas minhas idas, converso com desconhecidas a respeito do alto preço dos alimentos, observo casais e idosas desacompanhadas… E nessa segunda-feira, 27/4, fiquei admirada com a imagem de Frank Brown estampada em alguns pacotes de arroz, dispostos em uma das prateleiras do corredor de grãos de um supermercado localizado na zona norte da capital fluminense.

Bom, o que de início parecia encanto revelou tristeza! Logo, pensei: ah, deve ser mais uma dessas empresas que há décadas se apropriam da imagem de pessoas negras, apenas de modo caricatural, para vender seus produtos. E não é que o meu pensamento estava certo!? Porque, até então, eu não sabia que essa imagem era de Frank Brown. Mas, de acordo com Stuart Elliott, do New York Times, a imagem de Brown representa “Tio Ben”, que era um agricultor oriundo de Houston e passou a ser conhecido pela qualidade do arroz que produzia. E Brown era um maitre de um restaurante e foi nesse ambiente que ele conheceu a dupla, Harwell Gordon e Eric Huzenlaub, que criou a marca do arroz “Uncle Ben’s”, por volta de 1940. Conversa vai, conversa vem… Gordon e Huzenlaub convencem Brown a ser fotografado para que sua imagem passe a estampar as embalagens dos produtos da marca. A figura de “Tio Ben” a partir da imagem de Frank Brown ficou bastante conhecida e respeitada nos Estados Unidos. No entanto, como aqui no Brasil, o substantivo “Tio” antes do primeiro nome das pessoas negras não era, simplesmente, um tratamento carinhoso. Pois, mesmo que pessoas negras tenham conquistado respeito, as pessoas brancas recursavam-se chamá-las de “senhor” e “senhora”.

Foto/reprodução de Vilma Neres, em 27 de abril de 2015.

Foto/reprodução de Vilma Neres, em 27 de abril de 2015.

Desde a experiência que tive ao me tornar “vegetariana”, lá pelos idos de 2002 ou 2003, adquiri o hábito de consumir alimentos com o mínimo de inserção artificial, por interferir na propriedade nutricional e sobretudo para evitar a minha presença nos hospitais públicos… Leio sempre a tabela, no verso das embalagens, as informações de valores nutricionais e fico por minutos analisando o produto que consumirei.

Fui ao mercado comprar arroz e resolvi trazer um quilo da marca “Uncle Ben’s”, com objetivo de escrever esta crônica, fotografar a embalagem e utilizá-la durante as aulas que ministrarei. Ao ver o rosto de seu Frank Brown, imediatamente recordei do filme “Imitação da Vida“, dirigido por John Stahl, em 1934. Nesse filme, a atriz negra Louise Beavers é quem dá vida ao personagem de Delilah Johnson, mas no decorrer do drama chamará, apenas, “Tia” Delilah… Claudette Colbert é uma atriz branca e interpreta Beatrice ‘Bea’ Pullman. E tanto Delilah quanto Beatrice são mães solteiras. Mas, Delilah com agrave de sua filha ter sido fruto de uma relação inter-racial e ao crescer essa filha mestiça tenta negar a presença de Delilah como sua mãe…

Resumindo, o fato é que esse drama norte-americano remete ao caso brasileiro, também ficcional, de “Tia” Nastácia (Jacira Sampaio), e Dona Benta (Zilka Salaberry), personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, criados pelo escritor Monteiro Lobato. Delilah cria a receita de massa para panquecas e Beatrice inicia o empreendimento. O negócio alavanca e ambas poderiam lucrar… Mas, o diretor deixa para nós, telespectadoras(es), a interpretação de que foi dada a “oportunidade” para Delilah, mas ela recusou, porque se sente “melhor” servindo aos anseios de quem “lhe abriu a porta”. Isso é muito sutil no filme e extremamente ideológico, porque quem dirige e/ou escreve um roteiro cinematográfico não consegue se despir de suas crenças. E se, então, for racista!? Logo, todo esse arcabouço de “repertório cultural” será externado na obra ou em quaisquer outros tipos de produção.

Diferentemente de muitas caricaturas reproduzidas no meio publicitário, reconheço que o rosto de Frank Brown estampado na embalagem de arroz da marca “Uncle Ben’s” transmite uma mensagem relacionado ao bem-estar, por parecer uma face serena e bonita. Curiosamente, nessa embalagem não se observa nenhum estereótipo que condena e/ou desumaniza o homem negro.

No entanto, a cada segundo, designers, ilustradores, fotógrafos e artistas visuais em geral, são responsáveis por emitir mensagens imagéticas construídas historicamente de forma deturpada. Além de reproduzir e (re)criar estigmas negativos que ferem a partir de representações, generalizadas e estereotipadas, a humanidade de pessoas negras. Como observadas abaixo, as imagens reproduzidas da edição de 2008 do livro “Pele Negra Máscara Branca”(1), porém com outros traços e codificações sutis, ilustram, ainda hoje, outdoors, revistas, jornais, páginas de livros, etc.

Os exemplos acima não estão distantes da nossa realidade, em que imagens concebidas em pleno século XXI sob o prisma do pensamento e comportamento colonial, desembocam em muitos dos dramas compartilhados por nós, cidadãs e cidadãos brasileiros, com o tensionamento das relações étnico-raciais. Tensões essas originadas de construções históricas, mantidas pelo imaginário popular e expelidas nos espaços de poder, a exemplo das “universidades”, que deveriam ser um campo de desconstrução de paradigmas retrógrados. Mas, servem também para perpetuar pensamentos e que organicamente mantém as estruturas de poder construídas a partir de injustiças e violências – física e psicológica.

(1) “Pele Negra, Máscara Branca”, inicialmente publicado em 1952, foi escrito pelo psiquiatra e filósofo caribenho, da Martinica, Frantz Fanon, como resultado de sua pesquisa de doutoramento em psiquiatria. Por conta dos dramas que toda a sociedade enfrenta, a leitura desse livro deveria ser obrigatória. Ao final, entenderemos que estamos todas (e todos) doentes, pois independente de cor e/ou ascendência étnico-racial, somos responsáveis e devemos manipular antídotos para combatermos as mazelas consequentes do racismo. O livro foi publicado no Brasil pela Editora da Universidade Federal da Bahia – EDUFBA.

Clube de Afetos

Por Vilma Neres

Durante a minha formação em Comunicação Social/Jornalismo cursei duas disciplinas que abordavam a sétima arte como linguagem aliada à informação, para além do entretenimento. Sempre fui apaixonada pelo cinema, bem como pela fotografia. Lembro-me que uma das regras do meu professor de “Documentário” era que devíamos, no mínimo, assistir a cinco filmes semanalmente e em seguida analisá-los de modo subjetivo e com base teórica. Custei cumprir as tarefas de exercício diário de produção de crítica de cinema. Somente após seis anos eu retomo a essa divertida atividade e, sem aprisionamentos políticos, regras e prazos, invoco a escrita sobre cinema com base nos filmes vistos por recomendação ou curiosidade.

A inspiração para retomar o ato de escrever foi instigada logo após assistir ao filme The Single Moms Club/ O Clube das Mães Solteiras” dirigido por Tyler Perry, que também atua no filme com o papel de TK, o pai solteiro que formará par romântico com May (Nia Long) . Ao término do filme refleti o quão sozinhas estamos, nós, pessoas, nessa fase virtual e histórica de facebook e whatsApp! Em alguns momentos quando nos reunimos procuramos sempre “apresentar” uma ideia de empreendimento sob o pretexto de favorecer a coletividade. Mas, afinal, a qual coletividade nos referimos? Se não conseguimos nem dialogar com a outra pessoa do lado para saber como de verdade segue o percurso de sua vida…

Imagem reproduzida do filme, personagens: May (Nia Long), Jan (Wendi McLendon-Covey), Hiallary (Amy Smart, Esperanza (Zulay Henao), Lytia (Cocoa Brown).
Imagem reproduzida do filme “The Single Moms Club”/by Vima Neres: May (Nia Long), Jan (Wendi McLendon-Covey), Hiallary (Amy Smart, Esperanza (Zulay Henao), Lytia (Cocoa Brown). 

Escrito pelo diretor Perry, o roteiro é sensível ao abordar questões enfrentadas por mulheres que “se tornam” mães solteiras. São cinco mulheres protagonistas, entre essas uma colombiana, duas negras e duas brancas. Elas têm trajetórias, profissões e lidam com problemas distintos. O que têm em comum é o fato de serem mães solteiras. Elas se conhecem durante reunião na escola de seus filhos (e filhas) e são orientadas a realizar um evento para arrecadar fundos, porque os filhos (e filhas) poderiam ser expulsos (e expulsas) por comportamento desordeiro.

Como bem diz o ditado: “tem mal que vem para o bem”! Após a reunião, mesmo com aparente falta de compatibilidade entre elas, começam a planejar o evento durante encontros na casa de uma delas… E no decorrer dessas sessões elas criam “o clube das mães solteiras”. Não seria como o “clube da Luluzinha”. Elas criam vínculos, trocam afetos, compartilhar suas angústias, alegrias, projetos de vida… E juntas identificam afinidades que acreditavam não existir. “O clube das mães solteiras” seria como “o dia da motorista” ou um grupo de amigas que se unem para satisfazer o desejos de quereres umas das outras.

Sem dúvida que o cinema é um canal fechado que pode ser aberto ao refletirmos inúmeras questões compartilhadas em nosso cotidiano da “vida real”. Para mim, com certo saudosismo, “o clube das mães solteiras” é como o “Clube das Candaces”, formado por mim e quatro amigas – Ariane Teixeira, Simone Melo, Josi Paim e Fabiana Maia. Nos reuníamos quinzenalmente para cuidarmos umas das outras… Íamos sempre para casa de Ariane, porque à época, com exceção de Ariane, morávamos com os nossos familiares. Dividíamos o valor da compra dos ingredientes para “o prato do dia”, que quase sempre era preparado a “cinco mãos”. Durante o preparo íamos conversando, falávamos das conquistas, dos sonhos, dos desamores, das perdas, das frustrações… Após o almoço sempre acontecia a “sessão de beleza”… isso acontecia em Salvador e durou algum tempo.

Estando aqui, no Rio, desde 09 de março de 2012, sinto falta e necessidade de momentos como esses que vivi na companhia de minhas amigas e irmãs por escolha. Gostaria, e neste caso me refiro aos movimentos organizados de mulheres, seja essas negras e não negras, que os encontros fossem mais afetivos e que de fato pudessem catalisar as nossas energias para ações e mudanças mais efetivas em nossas vidas. Pessoas, homens e mulheres, precisamos de mais afeto! Afeto é necessário para a nossa existência enquanto seres humanos, seja esse afeto familiar, amigável e/ou amoroso. Afeto é importante e salva vidas! Em vez de hashtag vamos repercutir afeto! Como bem diz o cineasta Stephen Llyord Jackson“as pessoas precisam de amor do mesmo modo que as flores precisam de chuva”.

Serviço:

Abaixo assista ao trailer do “The Single Moms Club“.

Se gostou, assista pela plataforma Popcorn Time, que funciona como o Netflix, porém o Porcorn Time é grátis! Faça o download, depois instale em seu PC/ laptop e ótima sessão!

Crônica

Por Vilma Neres* [texto e fotos]

O ato de comer para algumas pessoas é alimento e para outras é algo mais! É prazer, status e sagrado. No meu caso, comer é energia e é a prova de que nós, seres vivos, somos substancialmente dependentes da matéria. E, hoje, eu amanheci filosofando e com a imensa vontade de preparar uma refeição, sobretudo saborosa. Porém, não tive a menor vontade de sair da cama, porque o céu estava nublado, açoitando um clima sombrio sobre a capital fluminense e a sensação era de que o sol não arraiou!

Mas, no embalo das vozes de Buika e de Mart’nália** me aprontei para criar um prato saboroso e, sendo modesta, criativo. Além de cuidar de mim e do meu lar! Cozinhar responde algumas dos questionamentos que tenho feito a mim mesma… Nos últimos dias tenho refletido acerca das coisas, lugares e pessoas que me trazem alegria e que acrescentam… Tenho refletido as histórias que me apetecem de vínculo afetivo (família, amigas, amigos, amores), e profissional. Porque há duas semanas me tornei efetivamente uma mulher de trinta e há exatos 34 dias alcancei a expectativa de morar sozinha, a despeito de estar distante da casa de mainha e de painho desde os meus 25 anos.

Talvez, esta seja a minha primeira tentativa de produzir jornalismo gastronômico… Como é notório entre as pessoas mais próximas, eu me importo pouco com a comida, mas adoro experimentar novos sabores e de otimizar receitas. Por que? Utilizei apenas alguns dos ingredientes que ainda estavam na geladeira e batizei o nome deste prato de “refolgado de abóbora com ovos de codorna e cebola roxa”.

Abóbora japonesa, ovos de codorna, cebola roxa e pimenta preta.

Abóbora japonesa, ovos de codorna, cebola roxa e pimenta preta.

De acordo com os ensinamentos que obtive com mãinha, Tereza Neres, e, ainda na minha infância, com a minha avó, Damiana Ferreira de Jesus (in memoriam), comer em jejum as sementes torradas da abóbora serve como um “santo remédio”, como dizia vóinha, para combater alguns tipos de verminoses e a polpa é muito rica em cálcio, fósforo, vitaminas A e B.

Quanto aos ovos de codorna, o meu pai, seu Vital Bispo, diz que são afrodisíacos. Mas, confesso que o ovo de codorna não tem mérito algum quanto ao meu apetite sexual, nunca alterou a minha libido! Para mim, o ovo de codorna é como um ingrediente curinga e delicioso. Nutritivamente, de acordo com informações pesquisadas na página “Outra Medicina”, o ovo de codorna é rico vitaminas B1, proteínas, potássio e, o mais importante para mim porque sofro de rinite crônica, possui a proteína ovomucóide, que combate as alergias

Bom, vamos ao passo a passo da receita criada por mim na manhã deste sábado, dia 26 de julho de 2014:

Ingredientes

1 cebola roxa (média)

7 ovos de codorna

¼ de uma abóbora japonesa

sal, pimenta preta e óleo (eu usei de canola) a gosto. Pode-se usar outras especiarias e ervas a seu gosto

Modo de preparar:

Corte a abóbora em cubinhos ou como preferir e arremesse numa panela com pouca água, já em fervura, e deixe cozinhar por aproximadamente 15 minutos. Nesse período, quebre cuidadosamente os sete ovos de codorna e reserve-os. Corte a cebola a seu gosto. Logo após, despeje os ovos e a cebola na panela com a abóbora. Aguarde por mais cinco (5) minutos e sirva-se com arroz e um delicioso suco de laranja.

Imagino que ficaria ainda mais saboroso se a bebida fosse vinho ou licor de jabuticaba, essas são as bebidas que eu adoro e se eu pudesse as beberia todo o santo dia!

Não me perguntem quanto aos sete ovos de codorna… Como são tão pequenos, porém muito nutritivos, em uma refeição eu costumo comer até sete ovos de codorna e depois fico uma semana sem querer ver a carinhas dos pequeninos ovos pintados. Bom apetite!

*Vilma Neres é taboroinha, nasceu em Ipirá/ sertão da Bahia, passou a metade de sua infância e a adolescência entre o vilarejo de Olhos D’ Água e a cidade de Salvador, morou por quase dois anos em Sampa e desde março de 2012 mora no Rio de Janeiro. É jornalista (3.382 DRT-BA), educomunicadora, fotógrafa, produtora audiovisual e aprendiz “na marra” de gastronomia.

**álbuns de Mart’nália: Menino do Rio; Madrugada; Ao Vivo.

Dance, ouça, reflita e informe-se ao som de Opanijé

Por Vilma Neres

Como o encanto da correnteza de um rio, o álbum Opanijé, que também denomina o grupo de rap, chega as lojas de todo o país e é o primeiro do trio, formado por Lázaro Erê, DJ Chiba e Rone Dum Dum. O disco apresenta um repertório riquíssimo e reúne 14 músicas que reportam fragmentos da história ancestral negra (afro-brasileira e africana), poetizando as identidades linguísticas, rítmicas e, sobretudo, religiosa.

O trio que forma o Opanijé é formado, da esquerda para a direita, por Lázaro Erê, Rone Dum Dum e DJ Chiba. Fotografia de Felipe Cartaxo/ Divulgação.

Opanijé é formado por Lázaro Erê, Rone Dum Dum e DJ Chiba. Foto de Felipe Cartaxo/ divulgação.

Desde 2005 a trajetória do Opanijé vem sido tecida e, pouco a pouco, suas produções são entoadas por muitas personalidades, a exemplo do fotógrafo Antonio Terra, da cineasta Viviane Ferreira, Xandy do grupo de pagode “Harmonia do Samba”, do rapper Thaíde, Elly Pretoriginal do DMN, Jair Cortecertu, entre tantas outras.

Para além da qualidade artística, porque é o espera de quaisquer produções, não há como ter dúvida de que o posicionamento do grupo Opanijé é político! Sem dúvida, o grupo traça uma história e com expertise constrói um legado para a produção musical brasileira, porque o Opanijé protagoniza a ação de musicar em ritmos e versos canções que verbalizam positivamente o Candomblé.

A canção, intitulada por “Encruzilhada”, que abre o disco é em homenagem a Exú e como canta e conta o Opanijé, é aquele que “comunica entre a terra e o céu”.  A letra também alerta contra a intolerância religiosa, enfrentada por muitos cidadãos e cidadãs brasileiras que vivenciam o Candomblé.

Assim como a música “Encruzilhada”, “A cura” emite uma mensagem de respeito à diversidade religiosa que há no Brasil. E vai além, fortalecendo o elo de resistência das culturas negras (afro-brasileiras), que há 126 anos vem resistindo as consequências da escravidão, da política de branqueamento legitimada com o projeto ideológico de eugenia e, mais evidente nas últimas décadas, pelo racismo.

O rap, como um gênero musical, serve ao Opanijé como um instrumento para pensar as mazelas encaradas pelas populações que não compartilham de cidadania plena. As músicas reunidas nesse primeiro álbum refletem o machismo, como “Hoje eu acordei mulher”. Já as canções “Sangue de Angola” e “Aqui onde estão” promovem uma reflexão acerca do protagonismo da população negra para a construção deste país. Como também aborda à violência e o extermínio dessa população programada como conta gota desde o dia 14 de maio de 1888.

O álbum Opanijé é repleto de participações especiais, que representam a musicalidade brasileira, como a Orquestra Rumpilezz, Gerônimo, Ellen Oléria, G.O.G, Gabi Guedes, DJ Márcio Cannibal, Robertinho Barreto, Aspri, Heider Soundcista, Gomes e X, André T e Sereno Loquaz. O álbum Opanijé foi produzido por André André T e Soraia Oliveira e lançado oficialmente em 26 de novembro de 2013 pela distribuidora Garimpo Música.

Serviço:

»Fanpage

»Myspace 

»Onde comprar

»Videoclipe da música “Se Diz”

Rádio Favela

Por Vilma Neres

Revisando o conteúdo da disciplina de jornalismo comunitário e não posso deixar de incluir o exemplo da Rádio Favela com o filme Uma onda no ar. A Rádio Favela é um exemplo fantástico de rádio comunitária que resistiu entre 1981 e 1996, em Belo Horizonte e atualmente opera com autorização, sintonizada na frequência 106,7 FM. Assista abaixo ao trailer do filme “Uma onda no ar“:

Chimamanda Ngozi Adichie: o perigo de uma única história

Fonte: Africa Book
Fonte: Africa Book

“…Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história.” (Por Chimamanda Ngozi Adichie).

Para acompanhar a fala transcrita, clique aqui.

Revolta dos Turbantes

Ativistas de diversos segmentos do movimento negro organizado  afirmam reivindicações da população negra durante manifestação histórica na cidade do Rio de Janeiro

TEXTO Vilma Neres ǁ FOTOS Antonio Terra

“ Quero cotas iguais e não diferentes! (…) Essa reparação já passou da hora, não desisto, pois eu sou um negro quilombola. A força do Ilê nos conduz nessa trajetória. Esse país aqui foi feito por nós, ninguém vai mudar ou calar a nossa voz! (…)”

O trecho acima refere-se a música “A bola da vez” do Ilê Aiyê noticia o sentimento do grupo “Revolta dos Turbantes”, formado por estudantes, professores, fotógrafos, jornalistas, cientistas sociais, geógrafos etc., sendo todos esses jovens e adultos negros participaram do último protesto sucedido no dia 20 de junho de 2013 na cidade do Rio de Janeiro, em afirmação e reivindicação das pautas de demandas da população negra local. Sensibilizados com a falta de representação de pessoas nas últimas manifestações em favor das questões que atingem essa população, um grupo de aproximadamente 200 pessoas juntou-se ao mar de gente que cobria as quatro pistas de trânsito numa extensão de 3,5 km da Avenida Presidente Vargas.

“Revolta dos Turbantes” formaliza o encontro entre jovens e adultos. Alguns desses, a exemplo da professora pela rede pública de ensino do município do Rio de Janeiro, Adélia Azevedo, Crispim Pinheiro, os fotógrafos Januário Garcia, José Andrade e do produtor audiovisual Umberto Alves, também foram às ruas durante o regime militar, protestaram a favor das Diretas Já e pelo impeachment de Collor, em 1992.

Esse encontro, consolidado no dia 20, foi político! Inicialmente motivado pelos jovens, Júlio Vitor e Rodrigo Reduzino, através do facebook e mais efetivamente no dia 19 em uma reunião presencial sediada no pátio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IFCS/ UFRJ, Centro da cidade.  “Revolta dos Turbantes” caracteriza um encontro também simbólico e estético, em que quase todos adornaram suas cabeças com turbantes em valorização da ancestralidade africana. Do mesmo modo que representa o grito pelas demandas da população negra, iniciado defronte à Igreja da Candelária, onde velas foram acesas em memória dos jovens mortos durante a chacina de 1993.

A lista de pautas exigidas, ao Estado e à sociedade brasileira, espelha a invisibilidade de negros e a violação de seus direitos nos mais diversos setores do país. Essas reivindicações abarcam até mesmo os direitos fundamentais, ainda inexistes em algumas regiões do país, como o acesso à saúde, educação e moradia digna.

Entre outras demandas específicas da população negra, como em apoio a PEC das domésticas; contra o extermínio da juventude negra; pela demarcação e titulação das terras de Quilombo e Indígenas; pela efetivação da Lei 10.639/2003 e 11.645/2008 que instituem o ensino da história africana, afrobrasileira e indígena no currículo escolar; respeito às religiosidades de matriz africana; pelo acesso à renda e ao mercado de trabalho; contra a remoção de famílias em áreas onde há especulação imobiliária; contra o Estatuto do Nascituro; pela desmilitarização da PM; contra a redução da maioridade penal; pelo fim do racismo no SUS.

O fotógrafo José Andrade (Zezzynho), também militante desde os idos do regime militar relembrou emocionado a manifestação de 1988 durante o Centenário da Abolição, em que foram impedidos de ultrapassar o monumento Pantheon Duque de Caxias, localizado na Avenida Presidente Vargas. “Esse grupo de jovens, que ordeiramente acompanhou toda a manifestação, com palavras de ordem as quais de desejo e de desabafo sobre o sistema, deu essa resposta ao atravessarmos o Pantheon”, conta. Disse ainda se sentir com a alma lavada e a sensação de dever cumprido com a Revolta dos Turbantes. Andrade citou alguns nomes dos que eram jovens naquela época e que se fizeram presentes nessa última manifestação, a exemplo de Marcos Romão, Januário Garcia, Adélia Azevedo, Spirito Santo, Aderaldo Gil, e mais alguns outros que estiveram presente compartilharam esse momento.

Assim como os demais manifestantes que coloriram a Avenida Presidente Vargas no início da noite do dia 20, durante o ato da “Revolta dos Turbantes” foram entoadas as seguintes mensagens, direcionadas aos demais manifestantes que lá protestavam por causas específicas, não somente pelo direito ao passe livre:

“Eu não sou bunda, eu não sou peito! Mulher Preta pede respeito!” “A polícia mata preto!” “O Estado mata Preto!” “Quem não pula é racista!” “Vem, vem, vem pra rua vem contra o racismo!”

“A música é a fisioterapia do mundo”

Por Vilma Neres

“A minha tataravó veio da Costa da África, com 12 anos de idade. Chegou aqui em 1781. Ela veio com uma família que trouxe ela, não como escrava! Mas, veio como uma empregada para poder penetrar aqui em Salvador, para conseguir libertar uma parenta dela que veio em condição de escrava. Ela trouxe muito dinheiro de lá, trouxe ouro, lagdbá, coral. Trouxe muita coisa, prata. Eu sei que ela comprou esse Candeal, aqui. Comprou cinco casas no Largo de Brotas, casou e teve três filhos. O marido dela se chamava Manoel Mendes e ela, Josefa de Santana. Ela chegou aqui em 1781 e faleceu em 1881, aqui no Candeal, com 112 anos! Dessa família sanguínea, nós temos 149 pessoas (risos), é muita gente! Tinha 12 escravos, ela”.

Por dona Zezita do Candeal, em narração da história da africana Josepha de Sant’na.

O filme “El milagro del Candeal”, dirigido por Fernando Trueba, já conquistou dois prêmios Goya, em 2004, de “melhor documentário” e um de “melhor canção original”. O documentário conta com a participação dos músicos Gilberto Gil, Mateus Aleluia, Mestre Pintado do Bongo, Carlinhos Brown, do pianista cubano Bebo Valdés, Caetano Veloso, Marisa Monte, entre outros artistas. Para o diretor Trueba, o filme trata-se de uma “música social”. O documentário foi gravado na comunidade do Candeal, localizada na cidade de Salvador, capital da Bahia – Brasil. Além da música, tem como abordagem as histórias pessoais de alguns moradores e a luta do músico Carlinhos Brown, através do projeto Pracatum Escola de Música, em promoção de mudanças significativas para moradores do Candel, onde Brown cresceu.

ficha técnica:

Diretor:  Fernando Trueba Produtor Executivo:  Cristina Huete, Carlos Lopez Co-Produção:  Carlos Cuadros Diretor de Produção:  Angélica Huete Diretor de Fotografia:  Juan Molina Engenheiro de som:  Pierre Gamet Montagem:  Carmen Frias Mixagem:  José Luis Crespo, Jose Antonio Bermudez Design Gráfico  Javier Mariscal

 

Macau

 Por Vilma Neres

Macau, um dos ícones da musicalidade afrobrasileira e precursor do funk brasileiro, esteve ontem, durante a “Feijoada do Trabalhador em homenagem ao Orixá Ogum”, realizado pela equipe da ong Projetos de Matrizes Africanas, no Centro Cultural Cartola.

O compositor carioca, autor de “Olhos Coloridos”, sucesso desde 1982. O mais recente obra do músico é o álbum “Macau, do jeito que sua alma entende“, lançado em 2012.

Opanijé – Se Diz | Clipe Oficial

 Por Vilma Neres

Em Salvador, o grupo de rap Opanijé lança o primeiro videoclipe Se Diz, consagrado pela inovação de transpor à música em valorização das religiões de matriz africana, a exemplo do candomblé. O grupo é composto por um trio de músicos talentosos, formado pelo carioca,  Luis Guilherme (DJ Chiba), e os irmãos baianos, Lázaro Castro (Lázaro Erê) e Rone Dum Dum (Rone Érico), que juntos contribuem para a produção musical. E vez ou outra, gentilmente, convidam outros músicos para produzirem em parceria.

Se Diz, a mais recente produção do Opanijé, poetisa e amplia possibilidades musicais, veja e escute em alto e bom som!

só Orixá quem manda no que a gente sente. A gente quer ser feliz e não sorridente!

O compositor Lázaro Erê, que em paralelo é pai, artista plástico e produtor executivo do grupo, conta que a influência musical do Opanijé é, sem dúvida,  pela música negra universal. Mas, como a Bahia dá régua e compasso, a cidade de Salvador é o berço principal desses músicos, pela presença e diversidade de ritmos da cultura afrobrasileira.

O rap, universalmente, é o ritmo que veicula mensagens de protesto contra as injustiças sociais, como também reverbera a cultura do movimento Hip Hop, como filosofia e cosmovisão de mundo. Musicalmente, Opanijé contribue para a produção musical e traz  inovações, por não ficar atada a um gênero musical, no caso o rap. O que caracteriza esse grupo é a inclusão de outros instrumentos, a exemplo de guitarra, berimbau, baixo, congas e xequerê etc., as batidas do rap.

Não é de hoje, mas há exatos setes anos, que as obras musicais do Opanijé são transversais a outros gêneros da música mundial, mas especificamente da black music, que vai desde afrobeat, ritmo criado pelo nigeriano Fela Anikulapo Kuti, ao ijexá, ritmo nascido dentro dos terreiros de Candomblé.

Músicos do grupo de rap Opanijé, da direita para esquera: Lázaro Erê/Castro, Rone Dum Dum e DJ Chiba. Foto/divulgaçao: ©Filipe Cartaxo

Opanijé/da direita para esquerda: Lázaro Erê, Rone Dum Dum e DJ Chiba. Foto ©Filipe Cartaxo

Assista abaixo, outra versão, bem curtinha, do videoclipe gravado com o músico Gabi Guedes:

Mais informações:

Myspace Opanijé – http://www.myspace.com/opanije

Facebook Opanijé – https://www.facebook.com/opanije

“Sexton” está em cartaz no CCBB – RJ

“Sexton” ainda está em cartaz no CCBB – RJ. A peça teatral é baseada na trajetória da poetisa estadunidense Anne Sexton. O texto foi escritor por Helena Machado e Julianna Gandolfe, e foi vencedor da 5ª edição do concurso de dramaturgia Seleção Brasil em Cena.
Quem ainda não viu, vale a pena e ver, pois o texto da dramaturgia é fantástico. A atriz brasiliense, Jéssica Cardoso, como todo o elenco, é muito talentosa. Jéssica Cardoso interpreta o papel da protagonista, Anne Sexton, e é dona de uma atuação forte, envolvente e emocionante.
 A peça ainda pode ser vista, pois ocorrerão mais quatro apresentações neste fim de semana, em dois horários no sábado e domingo, às 17h e 19h30.
"Sexton" - divulgação.

“Sexton” – divulgação.

Viagem pitoresca à Monte Castelo

Por Vilma Neres

No Rio de Janeiro há 40 anos, Primo é mineiro de Carangola e vive das frutas que vende nos arredores da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos.

PRIMO (4) X

“Primo” é o codinome de Luiz Brás, 67, há 40 anos saiu de Minas Gerais para viver no Rio de Janeiro. Foto by Vilma Neres.

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Quase que transportado do universo pitoresco de Rugendas/Debret, é como se observa Primo no olhar naif de Heitor dos Prazeres, ao chegar à Praça Monte Castelo. A semelhança de Primo com as obras desses pintores, é que no início do século XIX foram esses artistas que mais retrataram fragmentos da labuta diária de homens e mulheres negras.

De segunda à sexta-feira, das 11h até às 17h, Primo vive com orgulho a profissão de feirante. Assim como os profissionais de medicina, o vendedor de frutas é um agente de saúde para amigos e clientes, que desfrutam, literalmente, de conversas adocicadas com talhas de melancia, melão, abacaxi, laranja, caqui, pêra ou banana.

“Primo” é o codinome de Luiz Brás, 67, que de vendedor de picolé passou a comercializar frutas já fatiadas, prontas para o consumo. Sendo um apreciador do samba carioca, anda quase sempre de chinelo, camisa, bermuda e boné. É também amante do cinema, quando se estar no aconchego da família.

Em 1957 o mineiro chega a segunda capital do país, São Sebastião do Rio de Janeiro, ainda com 12 anos. O bairro de Mazomba – em Itaguaí, Região Metropolitana do Rio de Janeiro – tem sido palco de parte das mudanças vivenciadas por Primo. Em média leva-se 2h de viagem, saindo de Mazomba até o Centro da capital, onde trabalha e alimenta as amizades conquistadas ao longo desses últimos 27 anos.

O metalúrgico “Mudinho”, Raimundo Silva, diz que há 20 anos come frutas no tabuleiro de Primo, que hoje é um amigo e com quem fala dos amores, das dores e das alegrias. Mudinho conta que a história dos dois é nutrida na hora do almoço.  “Durante os 20 minutinhos que passo aqui é assim… ai é Primo pra lá e Primo pra cá”, festeja.

Cáudio Bezerra é mecânico e trabalha nas proximidades da Praça Monte Castelo, conta que admira a criatividade e, sobretudo, a simpatia do mineiro. “Compro frutas aqui sempre após o almoço, é minha sobremesa, além de bater papo. Geralmente, quando ele (Primo) está de bom humor, ele dá de brinde uma fatia de melão silvestre”, brinca.

Os vendedores(as) ambulantes são retratados(as) a partir de 1820, com a chegada de pintores europeus a fim de apresentar os costumes do Brasil para a corte portuguesa, a exemplo do tabuleiro das baianas de acarajé e seus quitutes. Desde então, esses afazeres caracterizam ruas e praças dos grandes centros urbanos, onde é, normalmente, possível garantir a sobrevivência, como faz Primo e centenas de brasileiros(as) que trabalham nas ruas.

Samba-Jazz contagia o Morro da Providência

Por Vilma Neres

Morro da Favela, hoje conhecido por Morro da Providência, nos proporciona uma vista de 360°, de onde é possível observar uma das mais famosas estações ferroviária do país, a Central do Brasil, além do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar, da Baía de Guanabara, Santa Teresa e da Pequena África – Zona Portuária.

As crianças da Providência fascinadas com o carisma do músico e saxofonista, Leo Gandelman. Foto: Antonio Terra.

O músico Leo Gandelman seguiu à risca o pensamento de Milton Nascimento, de que “todo artista tem de ir aonde o povo está“, ao descer do palco e interagir com uma das crianças do morro e num dueto, a partir do assovio da criança e do saxofone, improvisaram juntos “as rosas não falam“, emocionando a platéia.

Vou cantar para ver se vai valer! Laia ladaia sabatana Ave Maria“, trecho de a Rezade Edu Lobo, encorajou o gingado das crianças, que assistiam ao show sentadas ao lado do palco à frente da Igreja Nossa Senhora do Livramento da Providência, inspirando ainda mais os arranjos produzidos por Leo Gandelman.

Antes do esperado show, os moradores do morro puderam conferir apresentações de roda de capoeira, do Grupo de Percussão da Providência e de Paulinho Trompete. O festival foi apreciado por turistas que subiram o morro e de personalidades como o então secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame.

O Morro da Providência passa por transformações que já trazem impactos, ainda que silenciosos, para o cotidiano dos(as) moradores(as), os quais irão contar com outros meios de transportes alternativos, como o plano inclinado e do teleférico que ligará o Morro da Providência à Central do Brasil.

Essas mudanças vem sendo solidificadas com a entrada de serviços púbicos e também com união de forças de dentro do morro, a exemplo do fotógrafo Maurício Hora, nascido e criado na Providência, que desenvolve projetos em prol da preservação da memória local a partir da fotografia.

antropologia visual

 Por Vilma Neres

Beirú sedia maior exposição fotográfica a céu aberto que já aconteceu em um bairro da periferia de Salvador

A fotografia é arte do mesmo modo que informa, documenta e valoriza elementos estéticos de uma determinada cultura. Com essa intenção foi que a equipe do projeto Jornal do Beirú pensou e produziu a primeira mostra fotográfica a céu aberto sobre o bairro do Beirú, em parceria com o fotógrafo carioca, Maurício Hora, e a equipe do Inside Out Project, do artista francês, JR.

Às 6h da manhã do dia 28 de janeiro de 2012, equipe do projeto Jornal do Beirú em preparação para a montagem da primeira e, senão, maior mostra fotográfica sobre um bairro da periferia de Salvador. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

Atravessando Fronteiras: o cotidiano do Beirú com identidades, saberes e olhares é o título da mostra fotográfica que apresenta fotografias produzidas por 22 jovens participantes, de setembro de 2011 a janeiro de 2012, do projeto Jornal do Beirú. As fotos que compõem à exposição são de religiosos, lideranças comunitárias, artistas e feirantes.

Essa primeira mostra fotográfica faz referência ao cotidiano do bairro do Beirú, um local que tem história e onde há pessoas que valorizam a memória ancestral e os elementos identitários da cultura afrobrasileira, a exemplo das religiosidades de matriz africana, como o Candomblé.

Tio Souza (Valdemar José de Souza), um dos fotogrados, que reside no Beirú e é também o atual guru do afoxé Filhos de Gandhy. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

No total, foram 58 imagens, em tamanho 240x80cm, coladas em muros e paredes de casas que ficam no trajeto da Rua Direta do bairro Beirú, também conhecido por Tancredo Neves, localizado na periferia da cidade de Salvador (BA).

As fotografias foram coladas em muros e paredes de escolas e casas, que ficam no trajeto da Rua Direta do Beirú. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

“De dentro para fora” ou “Inside Out Project” é um projeto com dimensão global que objetiva transformar mensagens de identidade pessoal em obras de arte. A ideia de realizar uma mostra fotográfica sobre o bairro do Beirú surge após conhecer um dos trabalhos produzido em parceria entre o fotógrafo carioca, Maurício Hora, e o artista francês, JR, autor do Inside Out Project.

Joseane Conceição (Josi Paim) e os jovens, Catiane Leandro e Luan Gomes durante a montagem da mostra fotográfica. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

Em novembro de 2011, Maurício Hora veio a Salvador para orientar 22 jovens, durante dois dias de saídas fotográficas, que resultou na primeira e, senão, maior mostra fotográfica a céu aberto realizada por um grupo de jovens, que driblaram todas as dificuldades com o objetivo de mostrarem um novo olhar acerca do local onde residem.

Último dia (20/11/2012) de saída fotográfica entre os(as) jovens e a equipe do projeto Jornal do Beirú, com o fotógrafo carioca, Maurício Hora – o que aparece ao centro, de camisa branca com ilustrações na cor cinza. Foto de Vilma Neres.

Curiosidade sobre a origem do nome Beirú

O bairro do Beirú, que segundo dados da Secretaria da Justiça, Cidadania e dos Direitos Humanos da Bahia (SJCDH), possui 200 mil moradores(as), tem um nome de origem em Yorubá e passou a ser conhecido por esse nome, ainda no início do século XX, porém após 1985 passou também a ser conhecido por Tancredo Neves.

De acordo com a pesquisadora Celeste D’ Alcantara Arruda, a história do nome Beirú permite observar que é um nome de origem Yorubá que pertenceu a um homem de origem africana, que foi trazido como escravo da terra de Oyo, Nigéria – África, onde se falava o idioma Yorubá. Hoje, nota-se que, por vício de linguagem aqui no Brasil, o nome do Preto GBèrú sofreu alterações em sua grafia, que de GBèrú passou a ser chamado de Beirú.

Beirú, nome de origem Yorubá escreve-se GBÈRÚ e pronuncia-se BÊRÚ. Certamente, devido às inúmeras influencias linguísticas em nosso país, o nome do ancestral foi confundido com o do peixe.

Para os povos africanos os nomes escolhidos para seus filhos deveriam ter significados que norteassem o caráter e o destino dos mesmos. O nome GBÈRÚ significa brotar, florescer, desenvolver.  Infelizmente, a maioria dos moradores do bairro acha que este nome tem sonoridade “feia”. A falta de conhecimento de suas origens leva a este conceito de “feio” remetendo, sempre, ao último plano, o significado, o valor e a força do nome.

Nome dos jovens fotógrafos(as) que participaram do projeto Jornal do Beirú:

Amanda Élem de Souza Garcez, Caroline de Amorin, Catiane Leandro Cunha, Cleisson Nascimento de Souza (Brazão), Daiane Brito de Oliveira, Deise Cristina Batista Gomes, Ediélen Fernandes Mota, Everton Oliveira dos Santos, Joane Santos Lima, José Anderson Marques da Silva, Josivaldo Ferreira Nunes, Laryssa Farias dos Santos, Luan da Silva Gomes, Luzia da Silva Passos, Mylena Amaral Melo, Nairan Santos, Quércia dos Santos Andrade, Reinaldo Fonseca dos Santos, Rosivaldo Pereira Santana, Stefani Cristina Bonfim Ferreira e Vanuza Souza Silva.

Abaixo, confira mais fotos dos bastidores da montagem da exposição fotográfica sobre o bairro do Beirú:

Foto de Josafá Araújo (Fafá).

Montagem feita na entrada do bairro do Beirú, região conhecida por “curva da morte”, próximo ao Conjunto Arvoredo. Foto de Cleisson de Souza (Brazão).

Beirú discute comunicação, linguagens e a luta antiracista

Por Vilma Neres

Logo cedo, das 5h às 9h da manhã deste sábado, serão montadas cerca de 50 imagens. Os(as) fotografados(as) são religiosos, artistas e lideranças comunitárias, que moram no bairro Beirú. As imagens que compõem o acervo da mostra fotográfica “Atravessando Fronteiras: o cotidiano do Beirú, com identidades, saberes e olhares”, foram produzidas por 20 jovens, que participaram das duas últimas edições do Jornal do Beirú. Desta vez, o projeto tem financiamento da Fundação Pedro Calmon e do Fundo de Fomento à Cultura do Estado da Bahia. A realização da mostra fotográfica no Beirú trata-se de uma intervenção artística é uma realização do projeto Jornal do Beirú em parceria com a equipe do Inside Out Project e o fotógrafo carioca, Maurício Hora.

A partir das 14h às 20h, inicia o seminário “Comunicação, Linguagens e a Luta Antiracista”. A mesa de debate terá a presença da cientista social, Vilma Reis e da jornalista e pesquisadora, Márcia Guena. Durante o seminário, a proposta é discutir e pensar as diferentes formas de mídias e em quais aspectos influenciam na vida dos(as) cidadãos e cidadãs.

Outro objetivo é fomentar novos conceitos para a construção de mídias comunitárias, antiracistas e, sobretudo, pela democratização dos meios de comunicação. Logo após o debate será entregue o certificado para os(as) jovens que participaram das duas últimas edições (10ª e 11ª) do Jornal do Beirú. O encerramento do seminário será por conta do Coletivo Dendê Dub e a R.B.F (Rapaziada da Baixa Fria), com ritmo, poesia e música.

SERVIÇO

O quê: Seminário “Comunicação, Linguagens e a Luta Antiracista”; lançamento da primeira mostra fotográfica a céu aberto sobre o Beirú.

Onde: Colégio Estadual Zumbi dos Palmares, Rua Paraíba, 1.389, final de linha de ônibus do bairro Beirú/Tancredo Neves – Salvador, Bahia.

Quando: 28 de janeiro de 2012 – sábado.

Horário: 14h às 20h

Acesse: http://jornaldobeiru.blogspot.com.br/

Facebook: http://facebook.com/projetojornaldobeiru

“Quem foi à Bahia e não foi ao Bonfim, não foi à Bahia”

 Por Vilma Neres

O dito popular menciona a tradição e a fé que baianos e turistas devotam ao Senhor do Bonfim

A Lavagem do Bonfim acontece toda segunda quinta-feira do ano, desde o finalzinho do século dezenove – XIX.  Confira abaixo fragmentos em fotos do que houve – 16/01/2012 – durante a procissão em homenagem ao Senhor do Bonfim, e como bem diz o dito popular: “quem foi à Bahia e não foi ao Bonfim, não foi à Bahia”.

As tradicionais fitinhas coloridas “do Senhor do Bonfim” simbolizam pedidos de fé, proteção, prosperidade e agradecimentos por sonhos conquistados. Foto de Vilma Neres.

Além do branco, com a variação de cores, as fitinhas embelezam o Bonfim.                   Foto de Vilma Neres.

Ao fundo, observa-se a Basílica do Nosso Senhor do Bonfim, no alto da Colina Sagrada, bairro Ribeira, subúrbio de Salvador.  Foto de Vilma Neres.

Há três anos, o nigeriano Ayanwale Ayo Olayanju sobe à Ladeira do Bonfim para prestigiar as homenagens ao Senhor do Bonfim, também venerado como Oxalá para religiosos(as) do candomblé.  Foto de Vilma Neres.

Os irmãos benzedeiros, Ítalo e Ivan, na Ladeira do Bonfim.  Foto de Vilma Neres.

Nesse dia, 12, a  temperatura chegou em torno de 40ºC… água de coco não tem contra indicação, durante o trajeto… bebe-se a vontade. São 8km a pé, a distância que fiés caminham, saindo da Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia até o Bonfim.  Foto de Vilma Neres.

o vendedor ambulante, Luiz Santana, 67 anos, que há mais de 40 anos vende caldos de cana, no percurso da Lavagem do Bonfim.  Foto de Vilma Neres.

Durante a Lavagem do Bonfim, soteropolitanos(as) em protesto contra a má administração do atual prefeito, João Henrique Carneiro.  Foto de Vilma Neres.

X Festival de Violeiros Repentistas de Salvador

Por Vilma Neres (texto e fotos)

A viola garantiu o ritmo do repente, com versos e rimas entoadas por artistas que participam do X Festival de Violeiros Repentistas de Salvador. A tarde desse domingo, 11, ficou ainda mais quente com o show do grupo de samba de roda, Semente da Roça. Os repentistas Antônio Queiroz e Davi Ferreira foram os finalistas entre as sete duplas de violeiros repentistas e cordelistas.

A dupla finalista, Antônio Queiroz e Davi Ferreira, sendo apresentada pelo também repentista Bule-Bule.

O repentista, compositor e sambista, Bule-Bule  (Antônio Ribeiro da Conceição), que já gravou sete CDs e dois DVDs, foi quem apresentou o festival. Ao ser perguntado por que não compete, Bule-Bule respondeu que já tem nome e que agora pretende contribuir, seja como porta voz, pela preservação da cultura popular e sobretudo da literatura em cordel.

“Eu competi pela última vez em 1991, sou músico desde os 20 anos, quando venci em 1965, no município de Jequié durante um festival de violeiros repentistas. Não participo das competições porque entendo que devo deixar o lugar para os novos poetas. Eu já tenho nome, já sou reconhecido, canto há 44 anos”, pontua.

O festival contemplou diferentes modalidades do repente, como a sextilha, caracterizada por uma estrofe com rimas deslocadas, constituída de seis linhas, seis versos de sete sílabas, nomes que têm a mesma significação. Além da sextilha, os competidores tiveram que improvisar a partir das seguintes modalidades de repente: quadra, mote de sete, mote de 10, beira mar, martelo agalopado, rojão, pernambucano e martelo  alagoano.

Das sete duplas que participaram do festival, seis conseguiram a classificação. O primeiro lugar ficou com a dupla Antônio Queiroz e Davi Ferreira, já  Leandro Tranquilinho e Zé Pedreira ficaram com o segundo lugar e assim sucessivamente –  Caboquinho e João Ramos; Nadinho de Riachão e Maracujá; Beija Flor e Lavandeira; Bráulio Pinto e Zé Francisco.

O atual presidente da Ordem Brasileira de Literatura de Cordel (OBLC) é o repentista Paraíba da Viola (Antônio Tenório Cassiano), foi quem organizou essa edição do Festival. É também um dos artistas que tem preservado a memória da cantoria através da Banca dos Trovadores, localizada na Praça Cairú, onde dá acesso ao Mercado Modelo, Centro de Salvador. Em 2005, o repentista recebeu o título de “poeta popular” pela Fundação Gregório de Matos.

“Este é o segundo Festival que organizo e para mim representa manter a tradição da nossa cultura, a cultura popular brasileira e do nordeste”, completa.

A realização do X Festival de Violeiros Repentistas de Salvador teve patrocínio do Ministério da Cultura (Minc) através do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré.

Zé do Pandeiro, um dos músicos que compõe o grupo de samba Semente da Roça

Bule-Bule apresentando a modalidade de repente para a dupla, Leandro Tranquilinho e Zé Pedreira.


No improviso, os músicos Teo Guedes, Zé do Pandeiro, Neto de Procópio e Zé Araújos animaram o encerramento do Festival

Santana, músico e sambista do Recôncavo Baiano, é também membro do grupo Semente da Roça.

Atravessando fronteiras

Por Vilma Neres

Saída fotográfica reúne jovens soteropolitanos e o carioca Maurício Hora

Neste final de semana, de 19 a 20 de novembro, acontece um encontro entre 40 jovens e o fotógrafo carioca, Maurício Hora, que após um bate papo irão tomar as ruas do bairro Beirú, também conhecido por Tancredo Neves. A proposta do encontro é promover uma saída fotográfica, inédita para a história do bairro, que possa valorizar a identidade cultural dessa localidade a partir do olhar desses jovens.

O fotógrafo Maurício Hora é o que está com a câmera na mão, entre os jovens fotógrafos da Providência, Rio de Janeiro. Foto de JR.

O convite para o fotógrafo Maurício Hora foi feito pela equipe do Jornal do Beirú, realizadora do projeto Oficina Permanente de Jornalismo: memória e história afrodescendente. O fotógrafo Maurício Hora já desenvolve um projeto que alia educação e fotografia para crianças e adolescentes, todos(as) moradores do Morro da Providência, primeira favela do país, localizada na cidade do Rio de Janeiro.

Jovens que participam do projeto, da direita para esquerda: Luan Gomes, Nairan Santos, Catiane Cunha, Taás dos Santos, Ediélen Mota , Joane Lima e Josivaldo Nunes. Foto divulgação/Vilma Neres.

Maurício Hora, 41 anos, é fotógrafo autoditada, nascido e criado no Morro da Providência. Já mostrou seu trabalho no Centro Cultural José Bonifácio, FotoRio e no Museu de Artes de São Paulo – MASP. Em 2005, eleito o Ano do Brasil na França, atuou como diretor de fotografia do projeto Favelité, que levou o cotidiano da favela da Providência para o metrô de Paris. Em 2009 produziu em parceria com o fotógrafo francês, JR, e expôs fotografias sobre a Providência na Casa França, no Brasil.

O resultado desse encontro será a publicação de catálogo e a primeira mostra fotográfica a céu aberto, prevista para ser lançada em janeiro de 2012, com 40 fotografias dependuradas em paredes por todo o percurso da Rua Direta do Beirú, por isso estima-se que essa exposição seja apreciada por 200 mil moradores(as).

A realização dessa saída fotográfica conta com o apoio do fotógrafo Maurício Hora, que irá emprestar 10 câmeras fotográficas durante os dois dias de saída, e também do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia – IRDEB.

Jornal do Beirú

O projeto Jornal do Beirú é veículo de comunicação comunitária, iniciado em julho de 2002, com a finalidade de produzir e publicar matérias com enfoque no resgate da memória local e, sobretudo, pela elevação da autoestima dos(as) moradores(as) a partir da valorização dos elementos culturais da população negra, afrodescendente.

No dia 03 de setembro deste ano [2011] iniciamos mais uma formação para 40 jovens, entre meninas e meninos, com idade entre 12 e 19 anos, todos(as) residentes no bairro do Beirú. Esses(as) jovens vem participando de oficinas – Cidadania e Consciência Negra; Redação Jornalística; Fotografia; Diagramação – para aprender as técnicas básicas de produção de jornalismo. As aulas são realizadas aos sábados, em período integral, no Colégio Estadual Helena Magalhães.

O projeto tem duração de quatro meses, iniciado no dia 03 de setembro de 2011 e será concluído em janeiro de 2012. Agora, na última semana de novembro de 2011, será impressa a 10ª edição do Jornal do Beirú, produto das oficinas, e em janeiro será distribuído a 11ª edição, com um total de 10 mil exemplares, sendo cinco mil para cada edição, distribuídos gratuitamente para a população do bairro.

O projeto Oficina Permanente de Jornalismo do Jornal do Beirú: memória e história afrodescendente, que promove o Jornal do Beirú, desta vez conta com patrocínio do Fundo de Fomento à Cultura do Governo do Estado da Bahia, pois em 2010 o projeto foi selecionado através do Edital de Cultura Negra, promovido pela Fundação Pedro Calmon.

De 2002 a 2005 o Jornal do Beirú teve nove publicações, com 30 mil impressões. A produção era realizada por um grupo de jovens, orientados(as) pela jornalista e idealizadora do projeto, Márcia Guena. Três desses jovens, que à época tinham entre 16 e 22 anos, é também a jornalista Vilma Neres, o recém formado em psicologia, Gilcimar Dantas e a graduada em fisioterapia, Joseane Conceição.

Comunidade sofre com a falta de humanização nos serviços públicos

Por Vilma Neres

Moradores(as) da comunidade Raísa Gomes denunciam a ausência do poder público e a falta de ações de intervenção educativas e culturais. Nessa região a coleta do lixo só ocorre a cada dois meses, não há pavimentação nas ruas, carência de acessibilidade urbana, principalmente para as pessoas portadoras de algum tipo de necessidade especial.

O descaso com a saúde pública e a falta de urbanização nas comunidades à margem do olhar turístico produz como consequências a baixa autoestima, violência e doenças. Esses são alguns dos problemas sociais que dificultam o cotidiano da população soteropolitana que residem em comunidades da periferia de Salvador, a exemplo da comunidade Raísa Gomes, localizada na baixa do Arenoso, bairro Beirú/Tancredo Neves.

A dificuldade de deslocamento faz parte da rotina do pintor e portador de necessidade especial, José Jorge de Jesus, 48 anos, morador há 18 anos. Esse é só mais um dos problemas que José Jorge tem enfrentado, quando chove a situação fica ainda pior, pois  cobras e ratos invadem as casas e as ruas alagam de lama, porque ainda não existe pavimentação.

O pintor José de Jesus, 48, tem dificuldade de se deslocar dentro da comunidade onde mora há 18 anos, porque as ruas não são asfaltadas e também não há saneamento básico.

O pintor José de Jesus, 48, tem dificuldade de se deslocar dentro da comunidade onde mora há 18 anos, porque as ruas não são asfaltadas e também não há saneamento básico.

 “Além do mais, eu tenho dificuldade de subir ladeira, mas é a única forma de acesso que temos. Pra mim é muito difícil, porque pra qualquer canto que eu vá, tem ladeira. Quando chove fica mais difícil sair, tem também o lixo que leva mais de um mês para a Limpurb vir pegar. Agora é o seguinte, os políticos promentem antes das eleições, mas depois criam dificuldades para não realizar”, conclui.

“O João Henrique (atual prefeito de Salvador) pediu votos da gente e disse que ia fazer a mesma coisa que fez na Centenário (Avenida). Foi o que ele prometeu aqui, e até hoje estamos nessa situação. O bairro aqui só é falado pela violência, mas nós não queremos saber de violência, nós queremos lazer e moradia digna.

Vamos botar o ponto no i, se dá próxima vez que tiver eleição e voltarem a dizer que fará isso e aquilo, nós não daremos mais voto”, desabafa o pescador Antônio Jorge Moura, 52 anos, que reside há 23 anos na região de Raísa Gomes.

Vamos botar o ponto no i, se dá próxima vez que tiver eleição e voltarem a dizer que fará isso e aquilo, nós não daremos mais voto”, desabafa o pescador Antônio Jorge Moura, 52 anos, que reside há 23 anos na região de Raísa Gomes.

“Dá próxima vez que tiver eleição e voltarem a dizer que fará isso e aquilo, nós não daremos mais voto”, afirma o pescador Antônio Jorge Moura, 52, que reside há 23 anos na região de Raísa Gomes, comunidade localizada dentro do Beirú.

A fala do pescador traduz indignação e a consciência de que existe descaso por parte do poder público. Através dessa fala podemos identificar que, o que está por traz dessa problemática, é o crime de racismo ambiental contra mulheres, homens e crianças negras, que enfrentam realidades injustas, negadas dos benefícios de infraestrutura da região onde mora, dos mesmos serviços públicos que são realizado nos bairros, considerado nobres, como Pituba, Barra, Ondina, Corredor da Vitória, Graça, Stella Maris, etc.

O córrego que passa por dentro da comunidade Raísa Gomes, na verdade é um rio afluente do Rio Pituaçú. Hoje o lugar onde era só mato, abriga aproximadamente 300 famílias. Há pouco mais de 15 anos, no local onde hoje fica localizada a comunidade Raísa Gomes, havia duas bacias (pinicões) que serviam para oxigenar o esgoto que descia da casas da região de cima.


Com o passar do tempo, famílias ocuparam essa região, aterraram as bacias e ergueram casas mesmo sem planejamento por não ter onde morar.

A comunidade Raísa Gomes, antigo Suvaco das Cobras, está estabelecida há mais de 15 anos. Na imagem abaixo, capturada através do google maps, é possível ter noção do tamanho da comunidade, região sinalizada em vermelho. A direita da imagem, após a reserva de mata atlântica está o Centro Administrativo da Bahia (CAB), em contraste com a realidade dessa região.

Jair da Silva

O problema do lixo é o que mais causa danos à saúde dos(as) moradores(as) dessa região. “Quando não aguentamos mais o mau cheiro, tocamos fogo no lixo”, explica o cabeleileiro Jair da Silva, 33 anos, pai de uma criança recém nascida. A ação de queimar o lixo é para diminuir os riscos de contaminação pelo acúmulo de lixo que fica entre a Rua Vila Nova São Bento e a Quinta Travessa da Vila São Bento.

Mas, de acordo com informações do Portal EducaRede, a queima do lixo provoca doenças respiratórias e cutâneas, além de liberar gases tóxicos que atingem a atmosfera e se espalham pelo planeta, produzindo alterações climáticas.

A situação é bastante desumana e causa revolta, porque os problemas enfrentados, no dia a dia pela comunidade, oferecem riscos à saúde pública. Abaixo mais fotografias dessa realidade:

        

         

Rua da Horta, entre o bairro do Cabula VI e o Arenoso.

Fotos e texto por Vilma Neres, jornalista 3.382 DRT-BA 3382, reside no Beirú.

Luta antimanicomial é homenageada em Sessão Especial

Por Vilma Neres 

No último dia 18, quarta-feira, foram completados 24 anos de história do Dia Nacional de Luta Antimanicomial. A homenagem à luta antimanicomial foi antecipada para a tarde de ontem, terça-feira (17), realizada em Sessão Especial pela Comissão de Educação, Assistência Social e Saúde, da Câmara de Vereadores de Camaçari. A discussão foi em torno da Reforma Psiquiátrica entre outras questões do cotidiano das pessoas que sofrem com algum tipo de transtorno mental.

Além da presença de todos os 13 vereadoreas da Casa, houve a participação de profissionais da saúde, familiares e portadores de doenças mentais. A composição da mesa contou com a presença da subsecretária da Saúde, Sandra Pelegrino, da médica psiquiátra e coordenadora de Saúde Mental, Célia Baqueiro, da advogada Ludmila Correia, da diretora do Departamento de Media e Alta Complexidade, Elba Garcez, do ator e usuário do CAPS, José Raimundo dos Santos e das mães, Fabíola Pereira West e Maria dos Santos Freitas.

A subsecretária da Saúde, Sandra Pelegrino, falou em nome do secretário Camilo Pinto e muito emocionada enfatizou que “somos todos iguais com necessidades diferentes”. Informou que, no município, há dois (2) leitos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) especializados para atender pessoas com doenças mentais. Revelou que a Prefeitura de Camaçari prevê a construção de unidades do CAPSad III e CAPSi.

“O CAPSad III irá atender à população com transtorno mental e vai funcionar 24 horas, com atendimento especializado às pessoas com doenças mentais devido ao uso de álcool e drogas. Já o CAPSi é especializado no atendimento de crianças e adolescentes”, explicou Pelegrino.

A médica psiquiátra e coordenadora da Saúde Mental, Célia Baqueiro, mostrou em slides a estimativa de dados do Ministério da Saúde, que só em Camaçari há 30 mil pessoas com algum tipo de doença mental. “Desse total, cerca de 12 mil casos foi por uso execessivo de substâncias psicóticas e, aproximadamente, 8 mil pessoas possuem os casos mais graves de transtornos mentais”. Destacou ainda que hoje o município atende 2.500 pessoas através do CAPS e do Centro de Especialidades em Saúde Mental (Cesme).

A fala do representante da Associação Metamorfose Ambulante de Usuários e Familiares do Sistema de Saúde Mental do Estado da Bahia (AMEA) e usuário do CAPS-Camaçari, José Raimundo dos Santos, 43 anos, emociou todos os presentes ao dizer que já nasceu doente, com transtorno bipolar e esquizofrenia. Mas, hoje é uma pessoa que tem saúde mental, graças aos profissionais do CAPS. “Antes eu não tinha vida, não tive infância, fui dopado com remédios e internado diversas vezes em manicômios”.

Diante da experiência vivida dentro de hospitais psiquiátricos, Santos afirma que os manicômios são verdadeiros depósitos de seres humanos, sem nenhuma garantia e expectativa de recuperação da saúde mental das pessoas que sofriam com doenças mentais.

Ainda de acordo Santos, o município de Camaçari carece de materiais informativos em relação aos direitos da pessoa com transtorno mental. Ele indicou a utilização do “Guia de Direitos Humanos-Loucura Cidadã”, que pode ser conferido e baixado através da internet. Esse guia foi produzido pela AMEA, publicado em março deste ano, 2011.

Os vereadores da Casa sensibilizaram-se com a exibição de um filme produzido por profissionais e usuários do CAPS da Orla de Camaçari. O vídeo apresentado foi produzido a partir do cotidiano dos usários, e mostrou que um dos principais passos é descontruir o preconceito da sociedade contra à população que sofre com doenças mentais. Além de apontar mais ações através dos serviços públicos, mas que não sejam relacionados apenas à área médica. Ações no sentido de incluir o cidadão que tem transtorno mental, como a promoção de produção artística e intelectual, garantia do lazer e da qualificação profissional.

O vereador Oto da Farmácia (PSDB) parabenizou toda a equipe do CAPS e do Cesme pela humanização dos serviços prestados à população. Já o vereador Cleber Alves (PT) reconheceu a luta antimanicomial e da sociedade, no sentido de cobrar mais ações dos vereadores em prol da garantia de direitos dos cidadãos.

O vereador Marcelino (PT) reiterou a fala do usuário do CAPS ao dizer que até mesmo ele não sabia de muitas questões enfrentadas por familiares e portadores de transtornos mentais. Ressaltou a importância de se produzir mais materiais, como campanhas e informativos impressos para sensibilizar à população camaçariense.

REFORMA PSIQUIÁTRICA

Com a Reforma Psiquiátrica, a Lei 10.216/2001 garante a proteção de direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Uma das lutas do movimento antimanicomial é contra o uso de substâncias psicoativas e também a favor da desativação de hospitais psiquiátricos, não permitindo mais a internação de pacientes em manicômios.

Conforme explica Baqueiro, essa medida é só uma das conquistas do Movimento de Luta Antimanicomial, mas ainda há muito o que se fazer, no sentido de garantir o exercício da cidadania das pessoas com transtorno mental.

O Movimento de Luta Antimanicomial começou na década de 80, quando em 18 de maio de 1987 houve a realização do Congresso Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental, sediado na cidade de Bauru (SP).

Ao final desse congresso, os parcipantes já tinham escrito um documento com propostas de reformulação do modelo assistencial em saúde mental e a reorganização dos serviços públicos prestados à pessoa com doenças mentais.

A luta antimanicomial ficou mais fortalecida com a Constituição Federal de 1988 e também com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). A partir daí foram estabelecidas as condições institucionais para a prática de novas políticas de saúde de modo geral, bem como em favor da saúde mental.

SERVIÇO

Ambulatório através do Centro de Especialidades em Saúde Mental (Cesme) – Avenida Leste, número 9, bairro Novo Horizonte. Tel. (71) 3644-1721

CAPS – Rua São Bento, S/N, ao lado da Praça dos Buris, bairro Vila de Abbrantes. Tel. (71) 3623-1686

Guia de Direitos Humanos-Loucura Cidadã, para baixar clique aqui.


A comunicação como forma de contribuir ao desenvolvimento local

Por Vilma Neres

Vivi durante a minha adolescência no bairro do Beirú, conhecido por Tancredo Neves, periferia de Salvador, lá desenvolvemos um Projeto de Comunicação Comunitária, inicialmente idealizado pela jornalista Márcia Guena.

O Jornal do Beirú durou cerca de três (2002-2005) anos publicando informações de interesse dos moradores, além de trazer informações e pesquisas sobre a memória histórica do bairro, pois, essa região já abrigou um quilombo mantido por homens e mulheres negras que resistiram a escravidão.

A partir dessa experiência posso afirmar que comunicar é produzir sentidos para as relações humanas, produzir sentidos para a existência da vida, e sobretudo fazer-se compreendido e compreender o outro. Deste modo percebemos que comunicar é tudo, do mais simples gesto à escrita.

Essa reflexão permite dizer que a comunicação a partir de suas ferramentas contribue permitindo o acesso e a mobilidade da informação, proporcionando assim o desenvolvimento em diferentes aspectos da vida social. Abaixo assista uma breve entrevista com o pesquisador e docente da Universidade de São Paulo (USP) para compreender mais referente o conceito de educomunicação:

Durante a minha participação no Projeto Jornal do Beirú formei consciência crítica diante da dinâmica da nossa sociedade, no que se refere aos períodos históricos; a prática do racismo ainda presente em nosso cotidiano de norte a sul deste país; os antepassados desses homens e mulheres negras antes de tornarem-se propriedades de ‘senhores(as)’ escravocratas; etc.

Isso ilustra o quão importante foi para mim participar do Projeto Jornal do Beirú, pois, possibilitou uma mudança significativa para a minha vida, da minha família e para a vida dos(as) moradores dessa comunidade.

Portanto, a comunicação permite o desenvolvimento social de uma determinada comunidade, seja essa escolar, empresarial, bairro, etc., que ocorre com a participação das(os) envolvidas(os) e essa participação decorre da mobilização e da troca de experiências. Nesse sentido as ferramentas de comunicação possibilitam a transformação e o desenvolvimento social através da participação de todas(os) no processo comunicativo, conhendo as necessidades e as demandas da comunidade em questão.

Por uma infância sem racismo

Clique aqui.

A Campanha

A discriminação racial persiste no cotidiano das crianças brasileiras e se reflete nos números da desigualdade entre negros, indígenas e brancos.

Com a campanha Por uma infância sem racismo, o UNICEF e seus parceiros fazem um alerta à sociedade sobre os impactos do racismo na infância e adolescência e sobre a necessidade de uma mobilização social que assegure o respeito e a igualdade étnico-racial desde a infância.

Baseada na ideia de ação em rede, a campanha convida pessoas, organizações e governos a garantir direitos de cada criança e de cada adolescente no Brasil.

Por uma infância sem racismo é uma campanha realizada pelas seguintes instituições:

UNICEF;

Ação Educativa;

CEAFRO;

Ogilvy;

AW Comunicação;

X-Brasil.

FONTE: UNICEF

Iveth rapper moçambicana traduz consciência e solidariedade feminina

Por Vilma Neres

Primeiro vídeo clipe da compositora, cantora e rapper moçambicana IVETH. “Amiga” é o título desse rap que fala de violência doméstica, em sua maioria praticada contra mulheres, uma realidade em seu país, bem como aqui no Brasil. (Texto continua abaixo). Confira o vídeo clipe, eu adorei, sou fã da Iveth!

‎”Amiga” também faz crítica aos instrumentos públicos, aqui a gente pode citar a Delegacia da Mulher e a Lei Maria da Penha, criados para coibir a violação aos direitos da mulher. A rapper IVETH ‘realça o seu orgulho em ser mulher e africana”, bem como alimenta em todas nós, e acredito que em todos também, africanas(os) e da diáspora o renascimento, fortalecimento e pertencimento à nossa africanidade.

Sem falar na beleza estética e na composição da história apresentada neste vídeo clipe, sensacional! Bela fotografia, enquadramento, pura poesia visual, amo!!!

20 de novembro – Dia da Consciência Negra

Por Vilma Neres

‎20 de novembro é o dia nacional da Consciência Negra, é também nesse dia que nós, negras e negros deste país (Brasil), lembramos da morte de um dos nossos maiores heróis, ZUMBI DOS PALMARES, morto e/ou executado em 1695. Infelizmente ainda não há nada que comemorar, ainda vivemos em um país racista, e que por mais que este mesmo país trate essa prática como sendo um crime, a sociedade insiste em propagar o racismo em seu cotidiano através das telenovelas, das produções cinematográfica, dos livros didáticos (Caçadas de Pedrinho, do importante escritor de literatura infanto juvenil – Monteiro Lobato, etc.), nas instituições privadas e governamentais. 

Mas, ainda assim, sou otimista e acredito que a(o) minha(meu) neta(o) ou quem sabe a minha(meu) filha(o) só entenderá o racismo lendo os períodos históricos, e não conheçam e não sofram com essa aberração (racismo), o que trouxe para nós, mulheres e homens negros, sequelas drásticas, como depressão, baixa autoestima, invisibilidade, e que até algumas há décadas minhas(meus) avós foram impedidas de ascender socialmente, tendo negado o acesso à educação, uma das consequências do sistema escravocrata (1500 – 1988), mas essa mesma sociedade que negou o acesso a escola para homens e mulheres negras, descendentes de africanos e africanas, promoveu a imigração européia, trazendo italianos, espanhóis, etc. ofertando a essas famílias terra, moradia, educação e salário, ainda que não fosse o merecido, mas o Brasil República criou estratégias, apenas, em prol da ascensão das famílias imigrantes de países europeus, e por que isso não ocorreu com as famílias de negros(as)? Por isso, sou e somos a favor da reparação aos donos causados no passado e que permanecem até hoje (17 de novembro de 2010), sou a favor do sistema de Cotas Raciais, como política reparatória e emergencial em reparação histórica a todas(o) nós, homens e mulheres negras e indígenas.

“Afirme-se”

Para entender mais sobre a importância da implementação do Sistema de Cotas no ensino superior, na mídia e no mercado de trabalho conheça mais sobre a História do nosso país antes de comentar asneiras. As cotas raciais destinadas para nós, negras e negros, se configura como uma política de reparação histórica, pois foram quase cinco séculos de escravidão contra homens, mulheres e crianças que vieram de diversos paises do continente africano.  Cotas é uma política legítima e necessária.

Leia: As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição/ Mário Theodoro (org.), Luciana Laccoud, Rafael Osório, Sergei Soares. – Brasília: Ipea, 2008. 176p.: gráfs., tabs.

IIIº Encontro de Cinema Negro Brasil África e América – Zózimo Bulbul

Por Vilma Neres

Sabe-se que as produções cinematográficas produzidas nos países do continente já beira, aproximadamente, 80 anos. Pois, de acordo com o pesquisador Mahomed Bamba, a história do “cinema africano” vem sendo desde os últimos 50 anos, mas o primeiro filme produzido foi em 1924. Portanto, a nossa participação durante a 3ª edição do “Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe”, realizado pelo Centro Afro Carioca de Cinema Zózimo Bulbul, foi extremamente importante, enquanto jovens-mulheres-negras e realizadoras audiovisual. Digo extremamente, porque poucas de nós, mulheres-negras, se apropriam da produção de bens culturais e sobretudo no campo audiovisual.

 

Ao enviarmos uma cópia do filme Mocambos Invisíveis para o Centro Afro Carioca de Cinema, aos cuidados do diretor e mestre, Zózimo Bulbul, e logo após 15 dias recebermos um comunicado do Júlio Vitor que estaríamos (eu e a Danila de Jesus, ambas diretoras) participando do Encontro de Cinema Negro Brasil África e Caribe, foi uma honra e nos fortaleceu para seguirmos.

capa-memorial mocambos-14-12-2008

Mocambos Invisíveis é um documentário que aborda o direito à moradia e as realidades em torno das precárias formas de habitação que existe dentro da cidade de Salvador (BA). A experiência que compartilhamos com os cineastas africanos, brasileiros durante os dias de troca e aprendizado, com certeza, seguirá conosco por todo o curso de nossas vidas. Acredito que a minha geração tem um importante papel e a responsabilidade no que se refere a continuidade da proposta do Centro Afro Carioca de Cinema.

Em 2007 durante um seminário sobre Cinema Negro, realizado pela ONG Omi Dudú, na cidade de Salvador/BA obtive a informação de que no Brasil existem homens e mulheres negras produzindo cinema. Nesse seminário tive também a oportunidade de conhecer pessoalmente o cineasta Zózimo Bulbul, após assistir o curta metragem de sua autoria “Alma nos olhos”. Fiquei emocionada com a proposta do filme pela visibilidade de uma produção fílmica com qualidade técnica, artística e com posicionamento político.

**Centro Afro Carioca de Cinema exibe filme produzido por baianas durante programação do III Encontro de Cinema Negro Brasil África e Américas.

Acontece de 09 a 18 de novembro/2009, na cidade do Rio de Janeiro, o III Encontro de Cinema Negro Brasil África e Américas. A programação apresenta filmes produzidos por cineastas brasileiros/as, caribenhos, americanos e africanos. A abertura oficial acontecerá no Cine Odeon às 18h no dia 09 de novembro no Rio de Janeiro.

Filmes como o curta 5x Favela dirigido por Cacá Diegues, Twelve Disciples of Mandela dirigido por Thomas Allen Harris, O Dia da Posse de Obama – Espelhos dirigido por Lázaro Ramos e Mocambos Invisíveis documentário produzido pelas baianas Vilma Neres e Danila de Jesus, fazem parte da programação.

O III Encontro de Cinema Negro Brasil África e Américas conta com a presença do ator norte americano Danny Glover, o cineasta Rigoberto Lopez, o ator Lázaro Ramos e Zózimo Bulbul, ator, cineasta e curador do III Encontro. Durante o encontro serão realizadas diversas oficinas, que oferecerão aos participantes discussões para um público que pretende ou que estão iniciando produções em cinema, roteiro, sobre o Conteúdo Histórico do Cinema Negro, entre outras.

O filme das baianas será exibido no dia 12/11 às 14:30 no Centro Cultural Justiça Federal e no dia 14/11 às 18hs no Cine Odeon. O documentário Mocambos Invisíveis dirigido por Vilma Neres e Danila de Jesus foi resultado do TCC – trabalho de conclusão de curso -, apresentado no último semestre da graduação em Jornalismo, 2008. Esse filme aborda o cotidiano difícil de seis moradores da Vila Via Metrô, uma região pobre e decadente de infraestrutura, onde as pessoas vivem em condições precárias e desumanas.

A comunidade que cedeu espaços para as filmagens, a Vila Via Metrô, localiza-se, tendo como referência a BR 324, nas imediações da entrada de Salvador, capital da Bahia. O documentário surpreende com a narração dos personagens que relatam sonhos, alegrias e tristezas. Mocambos Invisíveis não é somente uma crítica às precárias condições de moradia, mas, sobretudo a documentação da carência de infraestrutura, da ausência do Estado e da invisibilidade da garantia do direito à moradia.

**Release escrito no dia 07 de novembro de 2009 por Vilma Neres

Espera mais que tardia

ImagemPor Vilma Neres

Passa Mapele, a cada dez minutos chega Mussurunga, corre fluente mais um Rio Vermelho e já suporto pouco mais de duas horas a espera do barro vermelho. É esse o nome do bairro em que moro, o bairro do Arenoso, é vizinho da comunidade do Beirú, mas conhecido por Tancredo Neves. O Arenoso abriga, hoje, cerca de duas mil famílias, a geografia do local é desfavorecida, como toda a cidade de Salvador existe um sobe e desce que, os Orixás nos acudam, não agüento mais subir e descer tantas ladeiras. Se for preciso comprar o pão, sobe ladeira. Precisa comprar carne de primeira, sobe mais um pouquinho e por ai vai, o dia já se foi, mas será necessário descer ou subir mais ladeiras porque de repente você sente uma dor e adivinha, lá onde moro não tem farmácia.

Café descafeinado

Por Vilma Neres
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Desde a última terça-feira (02.06.2009) sinto fortes dores na região frontal da cabeça. Hoje, conversando com minha mãe, que, aliás, não a vejo bem de pertinho há uma semana, ela me pergunta se eu sentir alguma diferença ao beber o café durante esses dias. Logo hesitei a pergunta sem antes respondê-la: mas por quê? Mãinha disse bem ditosa que deixou de comprar a marca habitual que consumimos e resolveu trocar pelo café descafeinado, “faz bem para a nossa saúde minha filha!”. Como assim, para o meu organismo só o café com cafeína, o verdadeiro café, me faz muito bem. Se não bebo café, fico muito mal, integralmente, nada funciona, fico estressada, mal humorada, não consigo escrever, pensar, é fico muito mal.

 Assim pude entender o porquê desta dor que sinto agora. Mãinha, a senhora quase me levou a um infarto. A senhora acredita que comecei a cogitar a possibilidade de ter sofrido um AVC, porque durante esses meus 24 anos nunca sentir dores na cabeça por mais de cinco dias, e o pior, quando não tomo café, assim que o dia amanhece, fico muito agitada, nervosa e logo a cabeça começa a pesar. Bebo café e passa, assim como um fenômeno astrológico que apreciamos ao rachar o céu.

A minha cabeça começou a doer, possivelmente, desde que a minha mãe resolveu mudar o tipo do café que bebemos em nossa casa, mas achei que não fosse à falta do café que me causava dores e sim outro problema, já que eu acreditava que bebia café com cafeína e também ingeria diariamente um analgésico, é pra ficar muito mal, pirar de vez.

De acordo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dependência que o organismo humano tem da cafeína trata-se de “um estado psíquico, e às vezes físico, causado pela ação recíproca de um organismo vivo e uma substância química, que se caracteriza por modificações no comportamento e por outras reações que compreendem sempre um impulso irresistível para tomar o fármaco (ou tóxico), contínua e periodicamente, de maneira a experimentar seus efeitos psíquicos e, às vezes, para evitar o mal-estar produzido pela privação da substância. Uma mesma pessoa pode ser dependente de uma ou mais substâncias”.

Eu sou dependente da cafeína, que não deixa de ser uma dependência química, mesmo que café seja uma bebida natural, já que o meu organismo encontra-se intoxicado pela cafeína. Meus olhos começam a ficar vermelhos e bem pequenos, aliás, já são pequeninos desde que nasci. Tenho a sensação de inchaço no rosto, enfim vivo uma perturbação se deixar de tomar o bendito bem que o café me faz. Dentro do meu ambiente familiar, somos eu e mais três irmãs dependentes da cafeína, entre as cinco pessoas que convivem comigo.

O consumo do café aqui no Brasil é sagrado, digo que um pouco exagerado. Em ambientes de trabalho, durante as reuniões, quando recebemos visitas em nossas casas é tradicional e comum que sirva um café bem quente, esse costume acontece de norte a sul, dentro dos 26 estados desse país.

O consumo excessivo do café, aqui em terras brasileiras, começa a partir de 1889, durante a República Velha (1889-1930), de acordo com os historiadores Luiz Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira (1987:264) para atender com os fazendeiros de café paulistas,mineiros e cariocas. A República Velha, por isso, foi chamada de República do Café. A imensa maioria da população dependia da economia cafeeira, direta ou indiretamente, considerando inclusive os setores em desenvolvimento.

Daí, até os dias de hoje, o consumo do café é mais do que necessidade, para mim o consumo do café é por pura dependência mesmo, pois, particularmente não gosto do sabor do café, mas aprecio o seu aroma, nossa é excitante!

Haitianos necessitam de ajuda humanitária

Por Vilma Neres

“O Haiti não é aqui!”. De acordo com o antropólogo e músico haitiano (integrante do Nomadic Massive), Vox Sambou, hoje exilado no Canadá, as tropas do exército brasileiro têm colaborado com o extermínio passivo de mães, crianças, jovens e idosos em diversas regiões do Haiti. São pessoas que moram em regiões periféricas, necessitadas de atendimento médico, alimentação, qualificação profissional, educação e não do genocídio de seu povo.

Aliás, se o governo brasileiro estivesse preocupado com o desenvolvimento sócio cultural desse país, com certeza enviaria profissionais da área de saúde, educação, do direito e não militares qualificados para promover o genocídio massivo de pessoas que vivenciam cotidianamente a desgraça e o temor em todas as esferas da sociedade haitiana. Documentos em audiovisual, como o documentário O que se passa no Haiti do jornalista Kevin Pina, foram produzidos para divulgar as ações de covardia executadas pelo exército brasileiro contra a nação haitiana.

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Em 22 de novembro de 2008 houve um encontro de intelectuais, músicos e artistas, que se reuniram no Quilombo Cecília, Rua do Passo – Centro Histórico de Salvador, com a finalidade de discutir demandas políticas de atuação contra o genocídio passivo de populações haitianas, para ser efetivadas por nós soteropolitanos, baianos e brasileiros.

Queremos fiscalizar e dar um basta e dizer não a estes modos de atuações do governo brasileiro dentro do Haiti.  Para entender mais, o Haiti é um país que é banhado pelas águas do Caribe, localizado no Oceano Atlântico, entre a Jamaica, República Dominicana e Cuba.

O dia é da sexta Santa

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Por Vilma Neres

A noite ia tornando-se dia, bem devagar caia vagarosa garoa molhava os telhados de eternit. O sol raiava e avisa: hoje, o dia* é de sexta-feira Santa! Os ecos agudos de choro iam invadindo todas as brechas do meu quarto e alguém gritava amedrontada, correndo por toda a Rua Luiz Gomes:

“executaram mais um!”.

Um vizinho vai à porta para espiar. Quem será que morreu? Vem-me a pergunta, enquanto lia mais um capítulo do livro “Cem anos de solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez, uma obra prima que mescla revoluções, fantasmas, incesto, corrupção e loucura. Macondo, onde a história acontece, é constituída por uma civilização arcaica. Fatos reais e fantásticos misturam-se, o contexto-histórico dessa narrativa remota aos primórdios da ocupação européia e se expande até os conflituosos séculos XIX e XX, quando a Colômbia divide-se em guerras civis, o enfrentamento ao neo-imperialismo e às multinacionais, exploradoras de riquezas naturais do país, revelam o homem.

Levantei desesperada, queria ter certeza dos zunidos que chegavam ao meu ouvido, pois havia uma leve impressão de que vivia um pesadelo ainda de olhos abertos. Mas, para a infelicidade de todos, era tudo real. Por que todos os dias não deixam de ser ‘santos’? Ao menos não acordaríamos com gritos desesperados.

“Arte não tem idade, é eterna”*

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Por Vilma Neres

O maranhense Antônio Vieira, 84 anos, formada em Ciências Contábeis, é cantor e compositor desde os 16 anos, mas o seu trabalho musical só ficou conhecido após intervenção do também cantor e compositor Zeca Baleiro. Vieira compôs diversas canções, como “tem quem queira”, esta você pode ouvir aqui, clique no link de áudio. E também “imbeota”, uma de suas composições gravada por Baleiro e cantada durante o projeto “Idade do Mundo”, em 2004, na Caixa Cultural de Brasília. Um termo recriado pelo autor que faz a junção de das palavras imbecil e idiota, respectivamente. A letra dessa canção faz uma crítica às pessoas que ganham notoriedade, mas não têm o que apresentar e não criam, apenas ganham fama e às pessoas que merecem reconhecimento permanecem no anonimato.

 FONTE: TV SENADO _ Canal VHS 53//

*ANTÔNIO VIEIRA

Mocambos Invisíveis

Sinopse: – “Mocambos Invisíveis” é o título de um filme documentário de média-metragem, de 42′, dirigido e realizado em 2008 por mim (Vilma Neres) e a jornalista Danila de Jesus. O filme aborda a realidade do cotidiano e das habitações precárias que existem dentro da cidade de Salvador-BA. Com “Mocambos Invisíveis” fomos finalistas durante o 37º Festival de Cinema de Gramado, em agosto de 2009, na categoria de “Produção Universitária”. O filme não é apenas uma crítica as condições precárias de moradia na cidade, mas, sobretudo um registro da carência de infraestrutura básica em comunidades populares e negligência do Estado frente ao direito fundamental à moradia.

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III edição do Encontro de Cinema Negro Brasil África e Américas – Realizado entre os dias 09 e 18 de novembro de 2009 o documentário Mocambos Invisíveis foi exibido durante a programação do 3° Encontro de Cinema Negro Brasil África e Américas, realizado pelo Centro Afro Carioca de Cinema.  Esse encontro se realiza anualmente desde 2007 com o objetivo de aproximar os que fazem cinema em países do continente africano e suas diásporas.

Ver site | III° Encontro de Cinema Negro Brasil África e Américas:

http://www.encontrodecinemanegro.com.br/cineastas/index.html

Em junho de 2009 o filme Mocambos Invisíveis finalista durante o 37° Festival de Cinema de Gramado, finalista na categoria Universitário Brasileiro, concorrendo com mais três produções cinematográficas de todo o Brasil.

Ver clipper// http://www.gramadocinevideo.com.br


					

Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá

Por: Maria Dolores*

Vocês conhecem Maria da Penha? Falo da mulher ativista que inspirou a criação da lei que recebeu o seu nome. Ela e Maria Dolores de Brito escreveram a oportuna reflexão sobre o caso Eloá:

Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.

No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram- se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.

O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa “honra”. Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha “quem ama não mata”.

Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega – o feminino.

Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o “extremo de um continuum de terror anti-feminino” , incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela – base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.

Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.

Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres – DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientizaçã o social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo “mulher honesta” e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.

Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de “um jovem em crise amorosa”, num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

* Maria Dolores é Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará /
Maria da Penha é inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006 e colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres
Notas:
[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate
emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.

FONTE: Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

 

 

 

 
 
 

 

CINEMA

Contos de Araçás

Uma breve análise do filme o fim e o princípio, um documentário de Eduardo Coutinho

[Marta Ambrosina Dantas (MARIQUINHA) – Fotografia capturada do filme]

O fim e o princípio é um filme que através da lente cinematográfica mostra o cotidiano do povoado de Araçás, situado a 6 km do município de São João do Rio do Peixe, sertão da Paraíba. Até então anônimo para o resto das populações do país, porém as idéias e o modo de vida das pessoas que moram em Araçás assemelham-se as com outras regiões interioranas do Brasil. Um povoado que afronta à seca e todas as adversidades que perduram em regiões desfavorecidas e esquecidas pelos poderes públicos. O fim e o princípio é dirigido por Eduardo Coutinho, renome do documentário brasileiro, e conta com a produção executiva de João Moreira Salles e Maurício Andrade Ramos.

Ouvir histórias de pessoas que moram no sertão foi a idéia inicial que levou o diretor a mostrar durante os 110 minutos de filme os diversos contos de Araçás. Pois, segundo Coutinho, o imaginário das pessoas é reforçado, devido à paisagem que os cercam, o ambiente rural. Um espaço definido por cenários hostis para as populações pobres com dificuldades de ascensão econômica e de movimentação. Pessoas que se asseguram à religião, neste caso ao cristianismo, para entender o verdadeiro conceito da existência humana, pessoas que temem a morte, mas que vivem em meio à solidão e a pobreza.

Os contos narrados por alguns atores sociais do povoado de Araçás, ao final, são como um relicário que caracteriza o perfil dos inúmeros vilarejos dos sertões brasileiros. Histórias cingidas com naturalidade para uma equipe que produz cinema. O fim e o princípio, sem sombras de dúvidas, é um filme que merece ser assistido e discutido por todo o povo nato deste país com o sentimento de conhecer a história do sertão brasileiro contada pelos próprios sertanejos.

O diretor, Eduardo Coutinho, carrega em sua bagagem conhecimentos adquiridos durante a sua passagem pela área do jornalismo, do teatro e do cinema. Um tripé que o caracteriza como um homem sábio, político (no sentido etimológico da palavra e não político de parlamentar), capaz de produzir cinema com sensibilidade a cerca de questões adversas sobre os diversos tipos de problemas existentes em todo o território brasileiro. Coutinho expõe a realidade como ela é. Não existe espaço e nem gosto pela manipulação. Conversas informais são mais interessantes e imprevisíveis do que a breve entrevista agendada, com perguntas elaboradas diante da tela do computador e do atrito dos dedos com o teclado e com o mouse. A voz-over (“voz de Deus”), só em momentos de apresentar ou quando é preciso narrar uma informação paralela à questão.

FICHA

O fim e o princípio (2005/2006, Brasil, 110′).

Mediadora: Rosilene Batista de Souza (Rosa, a jovem professora e agente voluntária da Pastoral da Criança do município de São João do Rio do Peixe).

Realizador, Vídeo Filmes (RJ): Eduardo Coutinho.

Produção Executiva: Maurício Andrade Ramos & João Moreira Salles

Direção de Fotografia: Jacques Cheuiche/ ABC

Som: Bruno Fernandes

Montagem: Jordana Berg

HABITAÇÃO

Do barraco mais alto até o asfalto* 

 

24 de abril de 2008 é uma data que ficará na memória e em algumas fotografias capturadas através da lente e vistas a partir do meu olhar. Lembrarei deste dia acentuado pela paisagem e através do sorriso das crianças que conheci dentro da Vila Via Metrô. Essa comunidade fica localizada nas imediações da BR 324, em frente ao bairro de Bom Juá. A Vila foi fundada em 2001 por um grupo de cidadãos que antes moravam de favor, de aluguel e outros vieram de regiões do interior da Bahia. A Vila carece de condições mínimas de infra-estrutura urbana.

Aqui, na cidade de Salvador a falta de moradia é reflexo da exclusão social, essa necessidade emergencial leva muitas famílias a construir em áreas de risco, daí origina-se as habitações precárias. Para a arquiteta e urbanista Maria Tereza Gomes do Espírito Santo, o espaço reservado à moradia, com infra-estrutura, segurança e com garantia de permanência “deve obedecer a um conjunto de políticas urbanísticas e sociais”, defini.

O quadro paisagista observado do alto do bairro da Mata Escura é composto por um labirinto de casas construídas com pedaços de folha de zinco, pedaços de madeira, escombros de obras e tronco de bambu. As ruas que dão passagem ao ir e ao vir dos moradores foram aterradas sobre córregos formados em outras localidades, como o bairro da Mata Escura e o bairro de São Caetano. As casas, em sua maioria, são ajeitadas por um, dois ou três cômodos e o recinto onde as necessidades fisiológicas são realizadas fica, normalmente atrás da casa, sem latrina, sem torneira e sem piso. As casas são construídas no vale de uma pedreira e a geografia da Vila Via Metrô não beneficia os moradores em épocas de chuva e ventania.

“Quando a semana termina tenho que arranjar madeiras, pregos e martelo para consertar o telhado e as paredes do meu barraco”, disse o pedreiro desempregado Fernando dos Santos. Esse relato é dito e vivido por quase todos moradores da comunidade Vila Via Metrô, uma realidade que interfere no cotidiano dessas pessoas e que compete com outras atividades, também essenciais para uma vida tranqüila e saudável, já que todo cidadão necessita de lazer, trabalho e entre uma atividade e outra cuidar do ambiente doméstico e compartilhar com seus familiares e amigos momentos prazeros.

A rotina do pedreiro Fernando dos Santos é parecida com os hábitos da dona de casa e mãe solteira de dois filhos, Nilzete Batista. Nilzete encara, durante o seu dia-a-dia, a batalha de fazer escavações na pedreira da Mata Escura para aterrar o quintal que dá para uma encosta. “Minha filha, eu ando com as minhas mãos calejadas de tanto carregar carrinho de mão cheio de barro. Essas crianças já me ajudam, o mais velho de doze anos fica na pedreira aguardando o meu retorno para apanhar terra e o de nove anos fica aqui dentro de casa”, relata.

O perfil dos moradores da Vila Via Metrô constata que os mais pobres e que vivem em regiões sem qualidade e infra-estrutura, são em sua maioria homens e mulheres negras. Conforme dados da SEHAB, 48% da população da Vila é composta por afro-descendentes, desses 50% de homens e 50% de mulheres, com idade variando de 18 a 65 anos. A maioria dos chefes de família é autônoma ou faz biscates e alguns deles encontram-se desempregados e sem ocupação. O Artigo 182º da Constituição Federal do Brasil de 1988 diz que “a política de desenvolvimento urbano, executada pelo poder público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em leis, têm por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”.  Então, qual seria a conclusão de que pessoas ainda morem em um lugar, onde tenham que atravessar um esgoto a céu aberto todas vez que precisar ir e vir, infelizmente essa realidade ainda pertence à cidade de Salvador. Ao lado, uma fotografia (Vilma Neres) do único meio de entrada e saída da Vila Via Metrô:

“Eu morava de aluguel, depois do aluguel passei a morar de favor, e morei por dez anos na casa da minha mãe. Lá não tinha espaço para mim com as minhas quatro filhas e mais oito irmãos. A casa da minha mãe era muito pequena para caber mais de 15 pessoas”, relata à mãe de quatro filhas e catadora de lixo reciclável, Gislene Costa, 31 anos.  “Não tenho vergonha de dizer que eu moro na Vila Metrô porque aqui é o meu canto, aqui é minha casa, aqui eu vivo de maneira digna por que não estou devendo, vou acordar de manhã e sei que vou sair e vou voltar diretamente para o meu cantinho. Saio e tenho certeza que vou voltar, não vou dever nada a ninguém e que amanhã eu não vou ouvir desaforo. O meu barraco é tudo”, disse. O relato de Gislene descreve uma realidade que faz parte do cotidiano de 150 mil famílias, equivalem ao número de unidades habitacionais que possuem algum tipo de precariedade, como falta de saneamento básico, legalização fundiária, carência de infra-estrutura, etc. nesse dado inclui o número de unidades novas a ser construídas no perímetro urbano da cidade de Salvador, segundo dados de 2005 da Fundação João Pinheiro.

*[*] Do barraco mais alto até o asfalto, trecho retirado da música “Favela” do D’ Black, músico carioca.

Espera mais que tardia

Passa Mapele, chega a cada dez minutos um Mussurunga, corre mais um Rio Vermelho e já suporto pouco mais de duas horas a espera do barro vermelho. É esse o nome do bairro em que moro, o bairro do Arenoso, é vizinho da comunidade do Beirú, mas conhecido por Tancredo Neves. O Arenoso abriga, hoje, cerca de duas mil famílias, a geografia do local é desfavorecida, como toda a cidade de Salvador existe um sobe e desce que, os Orixás nos acudam, não agüento mais subir e descer tantas ladeiras. Se for preciso comprar o pão, sobe ladeira. Precisa comprar carne de primeira, sobe mais um pouquinho e por ai vai, o dia já se foi, mas será necessário descer ou subir mais ladeiras porque de repente você sente uma dor e adivinha, lá onde moro não tem farmácia.

Alma Feminina

Dumba Neres

Sou mulher, sou jovem e como você, tenho gana

Sou humana!

Não uso máscaras

Quando decido quais atitudes adotar,

Qual caminho trilhar, refuto com caráter e sabedoria

Nem sempre aplaudo

Não sei disfarçar

Sinto frenesi pelas injustiças, porque sou filha de Oyá com Ogum

Sou mulher!

Sou dumba,

Sou parte de meus ancestrais, mulheres e homens

Quando olho para mim

Vejo o presente refletindo o meu futuro

Reluz o meu passado

É grandioso!

É radiante!

Entranho, sou sutil, sou encanto

Estimo por equidade, alteridade

PONTO DE CONTINUAÇÃO – Dumba, s.f. Na terminologia do culto omolocô mulher (OS) – Do quicongo ndúmba: moça, mulher jovem. FONTE: LOPES, Nei. Dicionário Banto do Brasil: repertório etimológico de vocábulos brasileiros originários dos Centro, Sul, Leste e Sudoeste Africanos. Rio de Janeiro: UFRJ, 1993-95

Religiosidade e Meio Ambiente

Religiões de matriz africana criam formas de preservação do meio ambiente

Sentada em uma das cadeiras de madeira que cercam a mesa da principal sala do Terreiro Ilê Axé Oiá, dona Anízia Rocha da Silva, 81 anos, mãe Santinha já aguardava para a entrevista que começaria às 14h. Perguntei para dona se poderia iniciar a entrevista ligando o gravador de áudio, ela, mãe Santinha respondeu com sinceridade que não seria possível gravar a sua fala. Porque ao longo da conversa pudessem surgir citações que não dizem respeito aos não adeptos do Candomblé.

“O Candomblé se serve da natureza e as plantas são elementos da natureza utilizados dentro do Candomblé. Portanto, sem a natureza não existe Candomblé”, salientou mãe Santinha. O uso das plantas é hoje manipulado pelas yalorixás dentro dos terreiros de Candomblé. Estas adquiriram esse conhecimento através de seus ancestrais africanos e indígenas. As yalorixás guardam consigo a sabedoria e o manejo das plantas, folhas, raízes, frutos e das árvores para fins medicinais e espirituais. “As folhas são elementos formidáveis dentro do Candomblé. Além de sua utilidade para a saúde espiritual às utilizamos para a cura de doenças física”, disse mãe Santinha.

Para as religiões de matriz africana os deuses são representados através dos vários elementos da natureza. Segundo mãe Santinha, cada indivíduo possui um Orixá que interfere no curso de sua vida. Sendo assim, cada indivíduo não poderá utilizar qualquer folha sem antes pedir permissão aos Orixás por meio do jogo dos búzios. Além das ervas, como elementos terapêuticos, o Candomblé utiliza outros elementos da natureza destinados à cura.Sentadas defronte para a mata que cerca o Terreiro Ilê Axé Oiá sentimos a suavidade do ar puro que a Salvador não conhece. Parecíamos estar muito distante do ar empoeirado causado pela queima dos combustíveis de automóveis. O Terreiro fica situado em uma das periferias do Parque São Bartolomeu. Mata verde e pouco freqüentada pelos soteropolitanos. Este é um dos poucos lugares verde que a cidade de Salvador abriga. A sua extensão é acompanhada pelo rio Cobre.

O culto aos Orixás requer percepção e purificação interior do corpo. Esse asseio é realizado por meio de banhos de folhas e com pedidos de redenção aos orixás. Segundo a farmacêutica e doutora, Mara Zélia, o primitivo dependia fundamentalmente da natureza para sobreviver. Contudo, o saber sobre a utilidade de determinadas plantas foi se perdendo no decorrer das civilizações. Na contemporaneidade o conhecimento das ervas é dos índios, africanos, yalorixás, babalorixás e estudiosos do assunto.

Na perspectiva que trilha os ensinamentos do Candomblé poderíamos ter no amanhã uma sociedade muito mais humanizada e de bem com a natureza. “Aqui no Ilê temos uma horta comunitária, destinada para o bairro de Conjunto Pirajá. Nessa horta plantamos e cultivamos somente plantas medicinais. Há variedades de plantas. A comunidade, sendo uma parcela evangélica, católica e de candomblé vem buscar as folhas quando necessário e sem nenhuma discriminação no que se refere ao candomblé”, conta.

Para o candomblé todas as plantas são sagradas. Os seus frutos e as suas sementes, cada uma com as suas propriedades, oferecem ao homem e a mulher nutrientes necessários à vida. “A medicina utiliza a extração das ervas para a produção de remédios e nós, de candomblé, as utilizamos como forma de colhermos a sabedoria destinada a nossa proteção física e espiritual”, completa mãe Santinha.