Entrevista com o griô e arte-educador Jorge Conceição

O griô e arte-educador Jorge Conceição se diz decepcionado com a feiura do mundo adulto e propõe, para além dos valores ideológicos, a pedagogia do amor. Este arte-educador almeja com essa pedagogia estudar e introduzir a questão da diversidade étnica, social e cultural na educação de crianças e adolescentes e também na formação da identidade de jovens, adultos e idosos.

[VILMA NERES] O que é ser arte-educador?

[JORGE CONCEIÇÃO] Ser um educador mais alegre, mais comprometido com a escola, mais comprometido com as múltiplas vias de produzir o conhecimento, o saber.

[V.N] Quando começou a trabalhar com arte-educação?

[J.C] Quando criança, os adultos só contavam histórias que mentiam medo, refernciando sempre a cor preta. As crianças gostam de todas as cores, mas quando mostra a cor preta elas não aceitam. E foi nesse sentido que comecei a trabalhar com crianças, em 1995, no Ilê Aiyê. Trabalhei com as crianças do projeto Cidade Mãe, Banda Erê (banda percussiva mirin do Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê).

[V.N] Por que mantém distância da academia?

[J.C] Desistir de ser professor titular da Ucsal e da Uneb, em ambas lecionava  Geografia da África e Teoria do Conhecimento Geopolítico. Decepcionei- me com feiúra do mundo adulto. Chamo de feiúra a falta de seriedade, a falta de respeito, a corrupção, a ambição, etc. Nesse período, em que vivi dentro da academia passei a me preocupar com a educação de crianças  de adolescnetes.

[V.N] Como surge essa preocupação?

[J.C] Estudando os traumas de crianças e jovens. Constatei alguns traumas adiquiridos dentro da instituição familiar, dentro da escola, na rua e com os próprios pais. Preconceito racial, machista, sexual, sócio-econômico, e que interferem na formação da identidade. O trauma de superação étnica provoca o racismo e daí por diante originam- se os mitos. Os mitos são valores ideológicos, cujo valores são de inferioridade pra uns e de superioridade pra outros. Então, os mitos servem para a introdução do complexo de inferioridade e superioridade, você não pode ser mais ou menos racista, é ou não é?

[V.N] Como superar esses mitos?

[J.C] Através de trabalhos educacionais que tenham como conteúdos e métodos, a filosofia de superação de traumas, recalques e sentimentos de superioridade.

[V.N] Exemplos de filosofia de traumas…

[J.C] Em relação a questão étnica, hoje nós temos a Lei 10.639, lei de inclusão da História das Culturas do continente africano nos livros didáticos de ensino fundamental e médio. Essa Lei traz conteúdos, métodos e questões que contribui com resgate das identidades étnicas dos descendentes de africanos desde a remota infância.

Em relação aos traumas sexuais: educação amorosa dos relacionamentos entre gêneros, pais e filhos, entre irmãos, primos e amigos. Trabalhar e promover o reencontro amoroso através da produção de materiais didáticos, oficinas de arte-educação e outros laboratórios lúdicos e psicopedagógicos que requeiram os sentimentos de igualdade entre as diferenças tantas.

[V.N] De que forma você, enquanto educador e griô pensa a superação dos traumas?

[J.C] Através das palestras, vivências no cotidiano, cursos e com uma produção literária ampla, com comteúdos e métodos que revisam toda uma construção de valores segegacionista, reprodutores de ódio e recalques, reprodutores de gula, consumismo fútil, egoísmo, etnocentrismo, etc. Este conjunto de sentimentos e ações patológicas são responsáveis pela construção de uma sociedade cada vez mais desumana. Portanto, trabalho com uma pedagogia que traduz sentimentos pela humanidade, pois a humanidade deve encarar todos como merecedores de respeito, ações afirmativas, direito à cidadania e a vida em quaisquer situações.

[V.N] Quais são esses sentimentos que valorizam a vida?

[J.C] Eu acredito que a solidariedade, o amor, a justiça, o desprendimento, a confiança, a seriedade. Todos estes são sentimentos importantes para uma vida justa e na afirmação de identidade. Todos esses sentimentos vão contribuir para reverter um conjunto de ações negativas, antiecológicas, destrutivas, machistas e racistas que estão conduzindo à humanidade a um processo difícil de convivência. A pedagogia que eu acedito passa pelo amor entre a humanidade reestabelecendo para esta a competência justa, assim, corações e mentes imunes de preconeitos e livres da individualidade.

[V.N] Exemplos de ferramentas didáticas para que a condição amorosa seja praticada…

[J.C] O livro o Boi Multicor é um exemplo estético, sonoro e textual da pedagogia que desconstrói cantigas de ninar, como exemplo “o boi da cara preta que pega a criança que tem medo de careta”. Dai reescrevo: o boi da cara preta que é muito belo e chega com os caretas. Ete convidou a boiada para uma relação solidária e brincalhona com as crianças e a carranca. O boi da cara azul chegou dançando lá do cruzeiro do sul. O boi da cara lilás, na Praça do Alecrim brinca com muita paz. O boi da cara amarela é muito lindo e desfila na passarela, enquanto que o boi sem pigmento come a jaca dividindo com o jumento. Deste modo, estou contribuíndo para uma infância mais respeitada, solidária e livre de preconceitos cosntruídos pelos adultos.

[V.N] Você é religioso?

[J.C] Sou religioso, mas não tenho igreja. A minha casa religiosa é está debaixo de um pé de jaqueira, com as formigas, ouvindo os trovões, tomando banho de praia, contemplando a natureza, contando histórias para crianças e adultos, ajudando a diminuir o sofrimento das pessoas. Meu templo está de acordo com os propósitos da natureza, da vida.

[V.N] Tabalhar com arte-educação é refúgio à feiúra do mundo adulto?

[J.C] Sim! Devemos treinar o ser humano ainda quando criança, educá-las para respeitar à vida e não educá-las para reproduzir o ódio, o egoísmo,  a falta de caráter, etc.

[V.N] Você, como ex. docente titular da Ucsal e da Uneb, o que é contribuir com a formação intelectual de alguém?

[J.C] Em primeiro lugar, respeitar os limites de raciocínio, de emoções e outros limites tantos que cada pessoa  está caracterizada. Depois trabalhar de modo holístico, interdisciplinar todos os conteúdos e métodos necessários para a formação de um caráter solidário, respeitando as diferenças e espiritualmente harmônico. Nesse sentido, o ser humano tem o seu início no campo do conhecimento com sabedoria.

[V.N] Exite falha na educação brasileira?

[J.C] Existem tantas… A primeira delas está associada ao próprio modelo político neoliberal que não prioriza a educação no orçamento da união. Melhorou bastante no governo de Lula com as disponibilidades de recursos materiais e programas de inclusão das classes sociais menos favorecidas no ensino superior e um olhar na direção da qualificação dos professores, mas ainda falta muito. E o outro fator, é a qualificação profissional de acordo com os contextos geográficos e culturais ou regionais. Então, a escola pública, principalmente nas séries mais avançadas, necessita com o máximo de urgência de uma educação mais contextualizada com a realidade ambiental e cultural. Algo que se basei até na pedagogia contextualizada de Paulo Freire, mas que avance com o uso de tecnologias educacionais e que ao mesmo tempo tecnologias brandas e ecológicas que preencham o vazio produtivo ou a falta de opção profissional para os jovens e adultos buscarem sua renda na própria localidade onde residem.

[V.N] Que valores você tem pra enfrentar a contemporaneidade de hoje como arte-educador?

[J.C] Os valores que eu cultivo para enfrentar a falta de respeito das pessoas, a hipocrisia, a intolerância, a falta de sensibilidade é praticar solidariedade cotidianamente, expressar solidariedade na minha produção literária. A arte-educação para mim é um instrumento de proteção para o outro, então eu faço desse instrumento um veículo que fortalece no outro a auto-estima, o sentimento de protegido, amado que fortalecem nas suas aventuras com os obstáculos criados pelo racismo machismo e outras formas tantas de exclusão social. Eu trabalho com uma perspectiva futura de criar uma pedagogia da justiça e paz, no processo integral.

***ENTREVISTA realizada em novembro de 2007 por Vilma Neres, no Museu do Objeto Imaginário, rua Gregório de Matos, Pelourinho.

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