JORNALISMO E ÉTICA

“O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter”, Cláudio Abramo.

Desde os primeiros dias de aula ouço alguns mestres discutirem que a função jornalística durante o dia-a-dia é uma questão de caráter, pois não existem no jornalismo regras, leis e/ou regulamentos que conduzam o jornalista a seguir uma trilha apedrejadas de lições éticas, ou seja, independente da situação, age com ética quem tem caráter. Logo, o jornalismo é desde a sua origem uma instituição que pode gerar ruídos entre as versões apresentadas sobre um mesmo fato, criar situações precipitadas e contraditórias. Talvez por ser uma instituição privada que, além de zelar pelos “interesses dos cidadãos” cuida dos interesses da empresa. E para discutir mais sobre ética e jornalismo, abaixo um ping-pongue com o jornalista e educador Marcos Dias.

Vilma Neres – Como a questão ética deve ser entendida para os profissionais de jornalismo?

Marcus Dias – Antes de qualquer coisa, a ética não é uma questão individual. Mas o jornalismo enquanto categoria, podemos encontrar jornalistas que acreditam que não há limites e outras que respeitam esses limites. Isso não significa compreender que a ética é de cada um. A ética vem como uma necessidade de estabelecer limites coletivos. Então, você vai encontrar pessoas que respeita e outras que não. Imagino que para os jornalistas, a questão da verdade, embora a gente possa filosofar e questionar do que seja ou que não seria verdade, ela se coloca como a questão mais importante que funda o sentimento ético e qualquer desvio do quer que se entenda como verdade seria condenar eticamente.

VN – Quando se publica um fato, se pensa primeiro na ética jornalística, ou em promover um furo jornalístico antes mesmo diagnosticar o que de fato ocorreu?

MD – Esta questão do furo, como o componente da nossa profissão que, dá visibilidade para o profissional, é um dos dados que mais compromete, de fato, o rigor que todo processo de divulgação da informação deve ter. Por buscar esse furo, o jornalista atropela alguns princípios que rege a ética profissional. Então, por exemplo, o que a gente chama de denuncismo, quando não se trata de má fé realmente, alguém querendo realmente provocar algum boato, confusão, desinformação. Muito disso vem por conta de não se checar, de não se usar fontes com versões paralelas sobre o ocorrido. Não costuma ter certeza da verossimilhança citada daquele fato. Quer dá o furo, quer ser o primeiro e se esquece o que diz a Lei. Às vezes, a pessoa se esquece por causa de uma apuração deficiente, ainda assim, a pessoa de forma deliberada prefere publicar. Você não vai deixar de dar um furo, mas ou mesmo tempo você não zela mais pela verdade. No caso clássico de José Ribeiro, é um caso desses. As pessoas sabiam que tinha um dado errado e publicaram mesmo assim. Quando você (Vilma) fala que, “como os jornalistas encaram a questão ética”, alguns autores preferem que exista certa síndrome de auto-suficiência. Se o jornalista não gosta de “prestar conta” dos métodos que ele utiliza para cada reportagem, obviamente a notícia será condenada, porque ele presta um serviço para a sociedade, para o cidadão. Então, a sociedade deve sim dizer o quer que ache condenável ou não, como ela quer essa atividade, etc. Isso não significa diminuir o trabalho do profissional.

VN – De fato, existe ética para transmitir um fato de interesse da sociedade?

MD – Vamos dizer que, tudo que seja considerado uma informação de qualidade no jornalismo realmente voltado para o interesse público, interesse do cidadão. Toda vez que ela não considera que esse serviço está sendo prestado para o cidadão começa a servir interesses políticos, econômicos, do que quer que seja. Toda vez que ela subestima, toda vez que ela desinforma, toda vez que ela se desloca da obrigação, ela estaria infligindo à ética. Ética é um campo filosófico e o ato de roubar é um crime, por exemplo. Mas se você pega um documento que prova que políticos estão usando dinheiro público para outros fins, você pode agir em nome do interesse público, é ético, embora roubar seja um crime. É exatamente essa questão que altera um pouco a nossa capacidade de achar como se a ética largasse uma regra que se aplica a todas as coisas. Uma frase comum, que as pessoas geralmente usam, é que “os fins justificam os meios”, para a ética não. Se os fins forem éticos os meios serão éticos.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s