Religiosidade e Meio Ambiente

Religiões de matriz africana criam formas de preservação do meio ambiente

Sentada em uma das cadeiras de madeira que cercam a mesa da principal sala do Terreiro Ilê Axé Oiá, dona Anízia Rocha da Silva, 81 anos, mãe Santinha já aguardava para a entrevista que começaria às 14h. Perguntei para dona se poderia iniciar a entrevista ligando o gravador de áudio, ela, mãe Santinha respondeu com sinceridade que não seria possível gravar a sua fala. Porque ao longo da conversa pudessem surgir citações que não dizem respeito aos não adeptos do Candomblé.

“O Candomblé se serve da natureza e as plantas são elementos da natureza utilizados dentro do Candomblé. Portanto, sem a natureza não existe Candomblé”, salientou mãe Santinha. O uso das plantas é hoje manipulado pelas yalorixás dentro dos terreiros de Candomblé. Estas adquiriram esse conhecimento através de seus ancestrais africanos e indígenas. As yalorixás guardam consigo a sabedoria e o manejo das plantas, folhas, raízes, frutos e das árvores para fins medicinais e espirituais. “As folhas são elementos formidáveis dentro do Candomblé. Além de sua utilidade para a saúde espiritual às utilizamos para a cura de doenças física”, disse mãe Santinha.

Para as religiões de matriz africana os deuses são representados através dos vários elementos da natureza. Segundo mãe Santinha, cada indivíduo possui um Orixá que interfere no curso de sua vida. Sendo assim, cada indivíduo não poderá utilizar qualquer folha sem antes pedir permissão aos Orixás por meio do jogo dos búzios. Além das ervas, como elementos terapêuticos, o Candomblé utiliza outros elementos da natureza destinados à cura.Sentadas defronte para a mata que cerca o Terreiro Ilê Axé Oiá sentimos a suavidade do ar puro que a Salvador não conhece. Parecíamos estar muito distante do ar empoeirado causado pela queima dos combustíveis de automóveis. O Terreiro fica situado em uma das periferias do Parque São Bartolomeu. Mata verde e pouco freqüentada pelos soteropolitanos. Este é um dos poucos lugares verde que a cidade de Salvador abriga. A sua extensão é acompanhada pelo rio Cobre.

O culto aos Orixás requer percepção e purificação interior do corpo. Esse asseio é realizado por meio de banhos de folhas e com pedidos de redenção aos orixás. Segundo a farmacêutica e doutora, Mara Zélia, o primitivo dependia fundamentalmente da natureza para sobreviver. Contudo, o saber sobre a utilidade de determinadas plantas foi se perdendo no decorrer das civilizações. Na contemporaneidade o conhecimento das ervas é dos índios, africanos, yalorixás, babalorixás e estudiosos do assunto.

Na perspectiva que trilha os ensinamentos do Candomblé poderíamos ter no amanhã uma sociedade muito mais humanizada e de bem com a natureza. “Aqui no Ilê temos uma horta comunitária, destinada para o bairro de Conjunto Pirajá. Nessa horta plantamos e cultivamos somente plantas medicinais. Há variedades de plantas. A comunidade, sendo uma parcela evangélica, católica e de candomblé vem buscar as folhas quando necessário e sem nenhuma discriminação no que se refere ao candomblé”, conta.

Para o candomblé todas as plantas são sagradas. Os seus frutos e as suas sementes, cada uma com as suas propriedades, oferecem ao homem e a mulher nutrientes necessários à vida. “A medicina utiliza a extração das ervas para a produção de remédios e nós, de candomblé, as utilizamos como forma de colhermos a sabedoria destinada a nossa proteção física e espiritual”, completa mãe Santinha.


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