HABITAÇÃO

Do barraco mais alto até o asfalto* 

 

24 de abril de 2008 é uma data que ficará na memória e em algumas fotografias capturadas através da lente e vistas a partir do meu olhar. Lembrarei deste dia acentuado pela paisagem e através do sorriso das crianças que conheci dentro da Vila Via Metrô. Essa comunidade fica localizada nas imediações da BR 324, em frente ao bairro de Bom Juá. A Vila foi fundada em 2001 por um grupo de cidadãos que antes moravam de favor, de aluguel e outros vieram de regiões do interior da Bahia. A Vila carece de condições mínimas de infra-estrutura urbana.

Aqui, na cidade de Salvador a falta de moradia é reflexo da exclusão social, essa necessidade emergencial leva muitas famílias a construir em áreas de risco, daí origina-se as habitações precárias. Para a arquiteta e urbanista Maria Tereza Gomes do Espírito Santo, o espaço reservado à moradia, com infra-estrutura, segurança e com garantia de permanência “deve obedecer a um conjunto de políticas urbanísticas e sociais”, defini.

O quadro paisagista observado do alto do bairro da Mata Escura é composto por um labirinto de casas construídas com pedaços de folha de zinco, pedaços de madeira, escombros de obras e tronco de bambu. As ruas que dão passagem ao ir e ao vir dos moradores foram aterradas sobre córregos formados em outras localidades, como o bairro da Mata Escura e o bairro de São Caetano. As casas, em sua maioria, são ajeitadas por um, dois ou três cômodos e o recinto onde as necessidades fisiológicas são realizadas fica, normalmente atrás da casa, sem latrina, sem torneira e sem piso. As casas são construídas no vale de uma pedreira e a geografia da Vila Via Metrô não beneficia os moradores em épocas de chuva e ventania.

“Quando a semana termina tenho que arranjar madeiras, pregos e martelo para consertar o telhado e as paredes do meu barraco”, disse o pedreiro desempregado Fernando dos Santos. Esse relato é dito e vivido por quase todos moradores da comunidade Vila Via Metrô, uma realidade que interfere no cotidiano dessas pessoas e que compete com outras atividades, também essenciais para uma vida tranqüila e saudável, já que todo cidadão necessita de lazer, trabalho e entre uma atividade e outra cuidar do ambiente doméstico e compartilhar com seus familiares e amigos momentos prazeros.

A rotina do pedreiro Fernando dos Santos é parecida com os hábitos da dona de casa e mãe solteira de dois filhos, Nilzete Batista. Nilzete encara, durante o seu dia-a-dia, a batalha de fazer escavações na pedreira da Mata Escura para aterrar o quintal que dá para uma encosta. “Minha filha, eu ando com as minhas mãos calejadas de tanto carregar carrinho de mão cheio de barro. Essas crianças já me ajudam, o mais velho de doze anos fica na pedreira aguardando o meu retorno para apanhar terra e o de nove anos fica aqui dentro de casa”, relata.

O perfil dos moradores da Vila Via Metrô constata que os mais pobres e que vivem em regiões sem qualidade e infra-estrutura, são em sua maioria homens e mulheres negras. Conforme dados da SEHAB, 48% da população da Vila é composta por afro-descendentes, desses 50% de homens e 50% de mulheres, com idade variando de 18 a 65 anos. A maioria dos chefes de família é autônoma ou faz biscates e alguns deles encontram-se desempregados e sem ocupação. O Artigo 182º da Constituição Federal do Brasil de 1988 diz que “a política de desenvolvimento urbano, executada pelo poder público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em leis, têm por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”.  Então, qual seria a conclusão de que pessoas ainda morem em um lugar, onde tenham que atravessar um esgoto a céu aberto todas vez que precisar ir e vir, infelizmente essa realidade ainda pertence à cidade de Salvador. Ao lado, uma fotografia (Vilma Neres) do único meio de entrada e saída da Vila Via Metrô:

“Eu morava de aluguel, depois do aluguel passei a morar de favor, e morei por dez anos na casa da minha mãe. Lá não tinha espaço para mim com as minhas quatro filhas e mais oito irmãos. A casa da minha mãe era muito pequena para caber mais de 15 pessoas”, relata à mãe de quatro filhas e catadora de lixo reciclável, Gislene Costa, 31 anos.  “Não tenho vergonha de dizer que eu moro na Vila Metrô porque aqui é o meu canto, aqui é minha casa, aqui eu vivo de maneira digna por que não estou devendo, vou acordar de manhã e sei que vou sair e vou voltar diretamente para o meu cantinho. Saio e tenho certeza que vou voltar, não vou dever nada a ninguém e que amanhã eu não vou ouvir desaforo. O meu barraco é tudo”, disse. O relato de Gislene descreve uma realidade que faz parte do cotidiano de 150 mil famílias, equivalem ao número de unidades habitacionais que possuem algum tipo de precariedade, como falta de saneamento básico, legalização fundiária, carência de infra-estrutura, etc. nesse dado inclui o número de unidades novas a ser construídas no perímetro urbano da cidade de Salvador, segundo dados de 2005 da Fundação João Pinheiro.

*[*] Do barraco mais alto até o asfalto, trecho retirado da música “Favela” do D’ Black, músico carioca.

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