O dia é da sexta Santa

paixao

Por Vilma Neres

A noite ia tornando-se dia, bem devagar caia vagarosa garoa molhava os telhados de eternit. O sol raiava e avisa: hoje, o dia* é de sexta-feira Santa! Os ecos agudos de choro iam invadindo todas as brechas do meu quarto e alguém gritava amedrontada, correndo por toda a Rua Luiz Gomes:

“executaram mais um!”.

Um vizinho vai à porta para espiar. Quem será que morreu? Vem-me a pergunta, enquanto lia mais um capítulo do livro “Cem anos de solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez, uma obra prima que mescla revoluções, fantasmas, incesto, corrupção e loucura. Macondo, onde a história acontece, é constituída por uma civilização arcaica. Fatos reais e fantásticos misturam-se, o contexto-histórico dessa narrativa remota aos primórdios da ocupação européia e se expande até os conflituosos séculos XIX e XX, quando a Colômbia divide-se em guerras civis, o enfrentamento ao neo-imperialismo e às multinacionais, exploradoras de riquezas naturais do país, revelam o homem.

Levantei desesperada, queria ter certeza dos zunidos que chegavam ao meu ouvido, pois havia uma leve impressão de que vivia um pesadelo ainda de olhos abertos. Mas, para a infelicidade de todos, era tudo real. Por que todos os dias não deixam de ser ‘santos’? Ao menos não acordaríamos com gritos desesperados.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s