Frank Brown é Tio Ben ou “Uncle Ben’s?

Por Vilma Neres

Assim como as deliciosas frutas típicas do nordeste brasileiro, tal como jabuticaba e seriguela, confesso que tem sido um exercício bom esse processo de escrevivência, termo formulado pela escritora, Conceição Evaristo. Pela escrita exponho o que me convém e acerca de assuntos que vivencio no meu cotidiano. Eu me identifico com a fotografia e a escrita, porque com essas linguagens me aproximo das pessoas que admiro e que estão há milhas de mim, mas sabem como tenho (sobre)vivido…

Acontece que sou eu a única responsável por cuidar da minha alimentação, dos afazeres domésticos, além de horas de estudo e escrita entre outros trabalhos que me mantém aqui, no Rio de Janeiro. Sei que quase sempre me surpreendo indo ao supermercado, porque, particularmente, essa atividade é interessante e, como dizia o professor Jorge Conceição, “toda experiência deve nos servir a fim de nos tornamos pessoas (mais humanizadas)”. Nessas minhas idas, converso com desconhecidas a respeito do alto preço dos alimentos, observo casais e idosas desacompanhadas… E nessa segunda-feira, 27/4, fiquei admirada com a imagem de Frank Brown estampada em alguns pacotes de arroz, dispostos em uma das prateleiras do corredor de grãos de um supermercado localizado na zona norte da capital fluminense.

Bom, o que de início parecia encanto revelou tristeza! Logo, pensei: ah, deve ser mais uma dessas empresas que há décadas se apropriam da imagem de pessoas negras, apenas de modo caricatural, para vender seus produtos. E não é que o meu pensamento estava certo!? Porque, até então, eu não sabia que essa imagem era de Frank Brown. Mas, de acordo com Stuart Elliott, do New York Times, a imagem de Brown representa “Tio Ben”, que era um agricultor oriundo de Houston e passou a ser conhecido pela qualidade do arroz que produzia. E Brown era um maitre de um restaurante e foi nesse ambiente que ele conheceu a dupla, Harwell Gordon e Eric Huzenlaub, que criou a marca do arroz “Uncle Ben’s”, por volta de 1940. Conversa vai, conversa vem… Gordon e Huzenlaub convencem Brown a ser fotografado para que sua imagem passe a estampar as embalagens dos produtos da marca. A figura de “Tio Ben” a partir da imagem de Frank Brown ficou bastante conhecida e respeitada nos Estados Unidos. No entanto, como aqui no Brasil, o substantivo “Tio” antes do primeiro nome das pessoas negras não era, simplesmente, um tratamento carinhoso. Pois, mesmo que pessoas negras tenham conquistado respeito, as pessoas brancas recursavam-se chamá-las de “senhor” e “senhora”.

Foto/reprodução de Vilma Neres, em 27 de abril de 2015.

Foto/reprodução de Vilma Neres, em 27 de abril de 2015.

Desde a experiência que tive ao me tornar “vegetariana”, lá pelos idos de 2002 ou 2003, adquiri o hábito de consumir alimentos com o mínimo de inserção artificial, por interferir na propriedade nutricional e sobretudo para evitar a minha presença nos hospitais públicos… Leio sempre a tabela, no verso das embalagens, as informações de valores nutricionais e fico por minutos analisando o produto que consumirei.

Fui ao mercado comprar arroz e resolvi trazer um quilo da marca “Uncle Ben’s”, com objetivo de escrever esta crônica, fotografar a embalagem e utilizá-la durante as aulas que ministrarei. Ao ver o rosto de seu Frank Brown, imediatamente recordei do filme “Imitação da Vida“, dirigido por John Stahl, em 1934. Nesse filme, a atriz negra Louise Beavers é quem dá vida ao personagem de Delilah Johnson, mas no decorrer do drama chamará, apenas, “Tia” Delilah… Claudette Colbert é uma atriz branca e interpreta Beatrice ‘Bea’ Pullman. E tanto Delilah quanto Beatrice são mães solteiras. Mas, Delilah com agrave de sua filha ter sido fruto de uma relação inter-racial e ao crescer essa filha mestiça tenta negar a presença de Delilah como sua mãe…

Resumindo, o fato é que esse drama norte-americano remete ao caso brasileiro, também ficcional, de “Tia” Nastácia (Jacira Sampaio), e Dona Benta (Zilka Salaberry), personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, criados pelo escritor Monteiro Lobato. Delilah cria a receita de massa para panquecas e Beatrice inicia o empreendimento. O negócio alavanca e ambas poderiam lucrar… Mas, o diretor deixa para nós, telespectadoras(es), a interpretação de que foi dada a “oportunidade” para Delilah, mas ela recusou, porque se sente “melhor” servindo aos anseios de quem “lhe abriu a porta”. Isso é muito sutil no filme e extremamente ideológico, porque quem dirige e/ou escreve um roteiro cinematográfico não consegue se despir de suas crenças. E se, então, for racista!? Logo, todo esse arcabouço de “repertório cultural” será externado na obra ou em quaisquer outros tipos de produção.

Diferentemente de muitas caricaturas reproduzidas no meio publicitário, reconheço que o rosto de Frank Brown estampado na embalagem de arroz da marca “Uncle Ben’s” transmite uma mensagem relacionado ao bem-estar, por parecer uma face serena e bonita. Curiosamente, nessa embalagem não se observa nenhum estereótipo que condena e/ou desumaniza o homem negro.

No entanto, a cada segundo, designers, ilustradores, fotógrafos e artistas visuais em geral, são responsáveis por emitir mensagens imagéticas construídas historicamente de forma deturpada. Além de reproduzir e (re)criar estigmas negativos que ferem a partir de representações, generalizadas e estereotipadas, a humanidade de pessoas negras. Como observadas abaixo, as imagens reproduzidas da edição de 2008 do livro “Pele Negra Máscara Branca”(1), porém com outros traços e codificações sutis, ilustram, ainda hoje, outdoors, revistas, jornais, páginas de livros, etc.

Os exemplos acima não estão distantes da nossa realidade, em que imagens concebidas em pleno século XXI sob o prisma do pensamento e comportamento colonial, desembocam em muitos dos dramas compartilhados por nós, cidadãs e cidadãos brasileiros, com o tensionamento das relações étnico-raciais. Tensões essas originadas de construções históricas, mantidas pelo imaginário popular e expelidas nos espaços de poder, a exemplo das “universidades”, que deveriam ser um campo de desconstrução de paradigmas retrógrados. Mas, servem também para perpetuar pensamentos e que organicamente mantém as estruturas de poder construídas a partir de injustiças e violências – física e psicológica.

(1) “Pele Negra, Máscara Branca”, inicialmente publicado em 1952, foi escrito pelo psiquiatra e filósofo caribenho, da Martinica, Frantz Fanon, como resultado de sua pesquisa de doutoramento em psiquiatria. Por conta dos dramas que toda a sociedade enfrenta, a leitura desse livro deveria ser obrigatória. Ao final, entenderemos que estamos todas (e todos) doentes, pois independente de cor e/ou ascendência étnico-racial, somos responsáveis e devemos manipular antídotos para combatermos as mazelas consequentes do racismo. O livro foi publicado no Brasil pela Editora da Universidade Federal da Bahia – EDUFBA.

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