antropologia visual

 Por Vilma Neres

Beirú sedia maior exposição fotográfica a céu aberto que já aconteceu em um bairro da periferia de Salvador

A fotografia é arte do mesmo modo que informa, documenta e valoriza elementos estéticos de uma determinada cultura. Com essa intenção foi que a equipe do projeto Jornal do Beirú pensou e produziu a primeira mostra fotográfica a céu aberto sobre o bairro do Beirú, em parceria com o fotógrafo carioca, Maurício Hora, e a equipe do Inside Out Project, do artista francês, JR.

Às 6h da manhã do dia 28 de janeiro de 2012, equipe do projeto Jornal do Beirú em preparação para a montagem da primeira e, senão, maior mostra fotográfica sobre um bairro da periferia de Salvador. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

Atravessando Fronteiras: o cotidiano do Beirú com identidades, saberes e olhares é o título da mostra fotográfica que apresenta fotografias produzidas por 22 jovens participantes, de setembro de 2011 a janeiro de 2012, do projeto Jornal do Beirú. As fotos que compõem à exposição são de religiosos, lideranças comunitárias, artistas e feirantes.

Essa primeira mostra fotográfica faz referência ao cotidiano do bairro do Beirú, um local que tem história e onde há pessoas que valorizam a memória ancestral e os elementos identitários da cultura afrobrasileira, a exemplo das religiosidades de matriz africana, como o Candomblé.

Tio Souza (Valdemar José de Souza), um dos fotogrados, que reside no Beirú e é também o atual guru do afoxé Filhos de Gandhy. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

No total, foram 58 imagens, em tamanho 240x80cm, coladas em muros e paredes de casas que ficam no trajeto da Rua Direta do bairro Beirú, também conhecido por Tancredo Neves, localizado na periferia da cidade de Salvador (BA).

As fotografias foram coladas em muros e paredes de escolas e casas, que ficam no trajeto da Rua Direta do Beirú. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

“De dentro para fora” ou “Inside Out Project” é um projeto com dimensão global que objetiva transformar mensagens de identidade pessoal em obras de arte. A ideia de realizar uma mostra fotográfica sobre o bairro do Beirú surge após conhecer um dos trabalhos produzido em parceria entre o fotógrafo carioca, Maurício Hora, e o artista francês, JR, autor do Inside Out Project.

Joseane Conceição (Josi Paim) e os jovens, Catiane Leandro e Luan Gomes durante a montagem da mostra fotográfica. Foto de Josafá Araújo (Fafá).

Em novembro de 2011, Maurício Hora veio a Salvador para orientar 22 jovens, durante dois dias de saídas fotográficas, que resultou na primeira e, senão, maior mostra fotográfica a céu aberto realizada por um grupo de jovens, que driblaram todas as dificuldades com o objetivo de mostrarem um novo olhar acerca do local onde residem.

Último dia (20/11/2012) de saída fotográfica entre os(as) jovens e a equipe do projeto Jornal do Beirú, com o fotógrafo carioca, Maurício Hora – o que aparece ao centro, de camisa branca com ilustrações na cor cinza. Foto de Vilma Neres.

Curiosidade sobre a origem do nome Beirú

O bairro do Beirú, que segundo dados da Secretaria da Justiça, Cidadania e dos Direitos Humanos da Bahia (SJCDH), possui 200 mil moradores(as), tem um nome de origem em Yorubá e passou a ser conhecido por esse nome, ainda no início do século XX, porém após 1985 passou também a ser conhecido por Tancredo Neves.

De acordo com a pesquisadora Celeste D’ Alcantara Arruda, a história do nome Beirú permite observar que é um nome de origem Yorubá que pertenceu a um homem de origem africana, que foi trazido como escravo da terra de Oyo, Nigéria – África, onde se falava o idioma Yorubá. Hoje, nota-se que, por vício de linguagem aqui no Brasil, o nome do Preto GBèrú sofreu alterações em sua grafia, que de GBèrú passou a ser chamado de Beirú.

Beirú, nome de origem Yorubá escreve-se GBÈRÚ e pronuncia-se BÊRÚ. Certamente, devido às inúmeras influencias linguísticas em nosso país, o nome do ancestral foi confundido com o do peixe.

Para os povos africanos os nomes escolhidos para seus filhos deveriam ter significados que norteassem o caráter e o destino dos mesmos. O nome GBÈRÚ significa brotar, florescer, desenvolver.  Infelizmente, a maioria dos moradores do bairro acha que este nome tem sonoridade “feia”. A falta de conhecimento de suas origens leva a este conceito de “feio” remetendo, sempre, ao último plano, o significado, o valor e a força do nome.

Nome dos jovens fotógrafos(as) que participaram do projeto Jornal do Beirú:

Amanda Élem de Souza Garcez, Caroline de Amorin, Catiane Leandro Cunha, Cleisson Nascimento de Souza (Brazão), Daiane Brito de Oliveira, Deise Cristina Batista Gomes, Ediélen Fernandes Mota, Everton Oliveira dos Santos, Joane Santos Lima, José Anderson Marques da Silva, Josivaldo Ferreira Nunes, Laryssa Farias dos Santos, Luan da Silva Gomes, Luzia da Silva Passos, Mylena Amaral Melo, Nairan Santos, Quércia dos Santos Andrade, Reinaldo Fonseca dos Santos, Rosivaldo Pereira Santana, Stefani Cristina Bonfim Ferreira e Vanuza Souza Silva.

Abaixo, confira mais fotos dos bastidores da montagem da exposição fotográfica sobre o bairro do Beirú:

Foto de Josafá Araújo (Fafá).

Montagem feita na entrada do bairro do Beirú, região conhecida por “curva da morte”, próximo ao Conjunto Arvoredo. Foto de Cleisson de Souza (Brazão).

Atravessando fronteiras

Por Vilma Neres

Saída fotográfica reúne jovens soteropolitanos e o carioca Maurício Hora

Neste final de semana, de 19 a 20 de novembro, acontece um encontro entre 40 jovens e o fotógrafo carioca, Maurício Hora, que após um bate papo irão tomar as ruas do bairro Beirú, também conhecido por Tancredo Neves. A proposta do encontro é promover uma saída fotográfica, inédita para a história do bairro, que possa valorizar a identidade cultural dessa localidade a partir do olhar desses jovens.

O fotógrafo Maurício Hora é o que está com a câmera na mão, entre os jovens fotógrafos da Providência, Rio de Janeiro. Foto de JR.

O convite para o fotógrafo Maurício Hora foi feito pela equipe do Jornal do Beirú, realizadora do projeto Oficina Permanente de Jornalismo: memória e história afrodescendente. O fotógrafo Maurício Hora já desenvolve um projeto que alia educação e fotografia para crianças e adolescentes, todos(as) moradores do Morro da Providência, primeira favela do país, localizada na cidade do Rio de Janeiro.

Jovens que participam do projeto, da direita para esquerda: Luan Gomes, Nairan Santos, Catiane Cunha, Taás dos Santos, Ediélen Mota , Joane Lima e Josivaldo Nunes. Foto divulgação/Vilma Neres.

Maurício Hora, 41 anos, é fotógrafo autoditada, nascido e criado no Morro da Providência. Já mostrou seu trabalho no Centro Cultural José Bonifácio, FotoRio e no Museu de Artes de São Paulo – MASP. Em 2005, eleito o Ano do Brasil na França, atuou como diretor de fotografia do projeto Favelité, que levou o cotidiano da favela da Providência para o metrô de Paris. Em 2009 produziu em parceria com o fotógrafo francês, JR, e expôs fotografias sobre a Providência na Casa França, no Brasil.

O resultado desse encontro será a publicação de catálogo e a primeira mostra fotográfica a céu aberto, prevista para ser lançada em janeiro de 2012, com 40 fotografias dependuradas em paredes por todo o percurso da Rua Direta do Beirú, por isso estima-se que essa exposição seja apreciada por 200 mil moradores(as).

A realização dessa saída fotográfica conta com o apoio do fotógrafo Maurício Hora, que irá emprestar 10 câmeras fotográficas durante os dois dias de saída, e também do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia – IRDEB.

Jornal do Beirú

O projeto Jornal do Beirú é veículo de comunicação comunitária, iniciado em julho de 2002, com a finalidade de produzir e publicar matérias com enfoque no resgate da memória local e, sobretudo, pela elevação da autoestima dos(as) moradores(as) a partir da valorização dos elementos culturais da população negra, afrodescendente.

No dia 03 de setembro deste ano [2011] iniciamos mais uma formação para 40 jovens, entre meninas e meninos, com idade entre 12 e 19 anos, todos(as) residentes no bairro do Beirú. Esses(as) jovens vem participando de oficinas – Cidadania e Consciência Negra; Redação Jornalística; Fotografia; Diagramação – para aprender as técnicas básicas de produção de jornalismo. As aulas são realizadas aos sábados, em período integral, no Colégio Estadual Helena Magalhães.

O projeto tem duração de quatro meses, iniciado no dia 03 de setembro de 2011 e será concluído em janeiro de 2012. Agora, na última semana de novembro de 2011, será impressa a 10ª edição do Jornal do Beirú, produto das oficinas, e em janeiro será distribuído a 11ª edição, com um total de 10 mil exemplares, sendo cinco mil para cada edição, distribuídos gratuitamente para a população do bairro.

O projeto Oficina Permanente de Jornalismo do Jornal do Beirú: memória e história afrodescendente, que promove o Jornal do Beirú, desta vez conta com patrocínio do Fundo de Fomento à Cultura do Governo do Estado da Bahia, pois em 2010 o projeto foi selecionado através do Edital de Cultura Negra, promovido pela Fundação Pedro Calmon.

De 2002 a 2005 o Jornal do Beirú teve nove publicações, com 30 mil impressões. A produção era realizada por um grupo de jovens, orientados(as) pela jornalista e idealizadora do projeto, Márcia Guena. Três desses jovens, que à época tinham entre 16 e 22 anos, é também a jornalista Vilma Neres, o recém formado em psicologia, Gilcimar Dantas e a graduada em fisioterapia, Joseane Conceição.

Comunidade sofre com a falta de humanização nos serviços públicos

Por Vilma Neres

Moradores(as) da comunidade Raísa Gomes denunciam a ausência do poder público e a falta de ações de intervenção educativas e culturais. Nessa região a coleta do lixo só ocorre a cada dois meses, não há pavimentação nas ruas, carência de acessibilidade urbana, principalmente para as pessoas portadoras de algum tipo de necessidade especial.

O descaso com a saúde pública e a falta de urbanização nas comunidades à margem do olhar turístico produz como consequências a baixa autoestima, violência e doenças. Esses são alguns dos problemas sociais que dificultam o cotidiano da população soteropolitana que residem em comunidades da periferia de Salvador, a exemplo da comunidade Raísa Gomes, localizada na baixa do Arenoso, bairro Beirú/Tancredo Neves.

A dificuldade de deslocamento faz parte da rotina do pintor e portador de necessidade especial, José Jorge de Jesus, 48 anos, morador há 18 anos. Esse é só mais um dos problemas que José Jorge tem enfrentado, quando chove a situação fica ainda pior, pois  cobras e ratos invadem as casas e as ruas alagam de lama, porque ainda não existe pavimentação.

O pintor José de Jesus, 48, tem dificuldade de se deslocar dentro da comunidade onde mora há 18 anos, porque as ruas não são asfaltadas e também não há saneamento básico.

O pintor José de Jesus, 48, tem dificuldade de se deslocar dentro da comunidade onde mora há 18 anos, porque as ruas não são asfaltadas e também não há saneamento básico.

 “Além do mais, eu tenho dificuldade de subir ladeira, mas é a única forma de acesso que temos. Pra mim é muito difícil, porque pra qualquer canto que eu vá, tem ladeira. Quando chove fica mais difícil sair, tem também o lixo que leva mais de um mês para a Limpurb vir pegar. Agora é o seguinte, os políticos promentem antes das eleições, mas depois criam dificuldades para não realizar”, conclui.

“O João Henrique (atual prefeito de Salvador) pediu votos da gente e disse que ia fazer a mesma coisa que fez na Centenário (Avenida). Foi o que ele prometeu aqui, e até hoje estamos nessa situação. O bairro aqui só é falado pela violência, mas nós não queremos saber de violência, nós queremos lazer e moradia digna.

Vamos botar o ponto no i, se dá próxima vez que tiver eleição e voltarem a dizer que fará isso e aquilo, nós não daremos mais voto”, desabafa o pescador Antônio Jorge Moura, 52 anos, que reside há 23 anos na região de Raísa Gomes.

Vamos botar o ponto no i, se dá próxima vez que tiver eleição e voltarem a dizer que fará isso e aquilo, nós não daremos mais voto”, desabafa o pescador Antônio Jorge Moura, 52 anos, que reside há 23 anos na região de Raísa Gomes.

“Dá próxima vez que tiver eleição e voltarem a dizer que fará isso e aquilo, nós não daremos mais voto”, afirma o pescador Antônio Jorge Moura, 52, que reside há 23 anos na região de Raísa Gomes, comunidade localizada dentro do Beirú.

A fala do pescador traduz indignação e a consciência de que existe descaso por parte do poder público. Através dessa fala podemos identificar que, o que está por traz dessa problemática, é o crime de racismo ambiental contra mulheres, homens e crianças negras, que enfrentam realidades injustas, negadas dos benefícios de infraestrutura da região onde mora, dos mesmos serviços públicos que são realizado nos bairros, considerado nobres, como Pituba, Barra, Ondina, Corredor da Vitória, Graça, Stella Maris, etc.

O córrego que passa por dentro da comunidade Raísa Gomes, na verdade é um rio afluente do Rio Pituaçú. Hoje o lugar onde era só mato, abriga aproximadamente 300 famílias. Há pouco mais de 15 anos, no local onde hoje fica localizada a comunidade Raísa Gomes, havia duas bacias (pinicões) que serviam para oxigenar o esgoto que descia da casas da região de cima.


Com o passar do tempo, famílias ocuparam essa região, aterraram as bacias e ergueram casas mesmo sem planejamento por não ter onde morar.

A comunidade Raísa Gomes, antigo Suvaco das Cobras, está estabelecida há mais de 15 anos. Na imagem abaixo, capturada através do google maps, é possível ter noção do tamanho da comunidade, região sinalizada em vermelho. A direita da imagem, após a reserva de mata atlântica está o Centro Administrativo da Bahia (CAB), em contraste com a realidade dessa região.

Jair da Silva

O problema do lixo é o que mais causa danos à saúde dos(as) moradores(as) dessa região. “Quando não aguentamos mais o mau cheiro, tocamos fogo no lixo”, explica o cabeleileiro Jair da Silva, 33 anos, pai de uma criança recém nascida. A ação de queimar o lixo é para diminuir os riscos de contaminação pelo acúmulo de lixo que fica entre a Rua Vila Nova São Bento e a Quinta Travessa da Vila São Bento.

Mas, de acordo com informações do Portal EducaRede, a queima do lixo provoca doenças respiratórias e cutâneas, além de liberar gases tóxicos que atingem a atmosfera e se espalham pelo planeta, produzindo alterações climáticas.

A situação é bastante desumana e causa revolta, porque os problemas enfrentados, no dia a dia pela comunidade, oferecem riscos à saúde pública. Abaixo mais fotografias dessa realidade:

        

         

Rua da Horta, entre o bairro do Cabula VI e o Arenoso.

Fotos e texto por Vilma Neres, jornalista 3.382 DRT-BA 3382, reside no Beirú.

Espera mais que tardia

ImagemPor Vilma Neres

Passa Mapele, a cada dez minutos chega Mussurunga, corre fluente mais um Rio Vermelho e já suporto pouco mais de duas horas a espera do barro vermelho. É esse o nome do bairro em que moro, o bairro do Arenoso, é vizinho da comunidade do Beirú, mas conhecido por Tancredo Neves. O Arenoso abriga, hoje, cerca de duas mil famílias, a geografia do local é desfavorecida, como toda a cidade de Salvador existe um sobe e desce que, os Orixás nos acudam, não agüento mais subir e descer tantas ladeiras. Se for preciso comprar o pão, sobe ladeira. Precisa comprar carne de primeira, sobe mais um pouquinho e por ai vai, o dia já se foi, mas será necessário descer ou subir mais ladeiras porque de repente você sente uma dor e adivinha, lá onde moro não tem farmácia.